O Dia Nacional da Habitação, celebrado hoje, 21 de agosto, costuma nos levar imediatamente à falta de moradias. O Brasil ainda convive com um déficit habitacional de milhões de domicílios e com cerca de 28 milhões de moradias apresentando algum tipo de inadequação.
Mas o texto não é sobre moradia, habitação. Vamos começar por uma questão. O que transforma casa em lar? Casa tem parede, porta, telhado, endereço. Pode ser comprada, alugada, financiada, construída.
Lar é outra engenharia. É o lugar onde alguém percebe a nossa ausência. Onde existe a cadeira que, de algum modo, é nossa. Onde podemos adoecer sem imediatamente perder o direito de permanecer. Onde envelhecer não significa tornar-se um estorvo. Onde a fragilidade não cancela o pertencimento.
É possível ter casa e não ter lar. É possível passar a vida procurando não apenas um teto, mas alguém que diga: “...fique!”
A população em situação de rua mostra a face mais evidente da ferida. Mas há outras formas de ficar sem lar que não aparecem debaixo das marquises. Uma delas é especialmente dolorosa. Pessoas com transtornos mentais graves podem atravessar crises longas, perder autonomia, exigir cuidados permanentes e, em alguns casos, romper progressivamente seus vínculos familiares. Há famílias que chegam ao limite por falta de orientação, recursos e suporte público. Há também situações de abandono.
É importante distinguir uma coisa da outra. Exaustão familiar também precisa de cuidado. Ninguém deveria ser obrigado a enfrentar sozinho uma doença complexa. O Estado precisa estar presente antes que a família desabe junto com quem adoeceu. Mesmo assim, a doença não pode significar expulsão afetiva.
O próprio SUS mantém Serviços Residenciais Terapêuticos destinados, entre outros públicos, a pessoas que passaram longos períodos em instituições psiquiátricas e já não possuem suporte social ou familiar. Existem atualmente 956 dessas casas pelo país. A proposta é exatamente reconstruir autonomia, cidadania e vida em comunidade.
Repare na beleza da ideia de recuperar uma vida. Muitas vezes, não basta tratar a doença. É preciso reconstruir um lugar no mundo. Um quarto com uma mesa. Rotina. Gente por perto. Pertencimento.
A dimensão mais profunda da política de habitação não é apenas entregar as chaves, mas devolver a possibilidade de existência social.
Um paralelo incômodo em outra espécie de abandono que naturalizamos é o dos animais domésticos. O cachorro cresce. A gata adoece. O animal envelhece. Surge despesa veterinária, mudança de endereço, viagem, uma dificuldade qualquer. Quem durante anos foi chamado de “membro da família” muitas vezes termina deixado numa estrada, numa praça ou diante de um abrigo.
O abandono de cães e gatos é tratado como maus-tratos pela legislação brasileira. O país criou em 2025 um programa nacional que inclui expressamente entre seus objetivos a prevenção do abandono e a redução do número de animais nas ruas.
Claro que pessoas e animais não são situações equivalentes. Mas uma pergunta moral atravessa as duas. O que fazemos com aqueles que dependem de nós quando cuidar deixa de ser fácil?
A verdadeira medida de uma sociedade não está no modo como recebe alguém saudável, bonito, produtivo e independente. Está no que faz quando alguém envelhece, adoece, perde autonomia, dá trabalho, gera despesa e precisa permanecer.
Amar enquanto tudo funciona é simples. O desafio começa quando o amor precisa virar cuidado.
Neste Dia Nacional da Habitação, vamos ampliar a planta. Precisamos construir casas. Muitas. Precisamos de financiamento, urbanização, saneamento, acessibilidade, aluguel social, políticas para quem vive nas ruas e cidades capazes de receber todas as pessoas. Também precisamos reconstruir lares.
A pior falta de teto não atinge quem a chuva alcança o corpo. A pior é quando ninguém mais nos reconhece como alguém de casa. Uma sociedade verdadeiramente habitável começa quando ninguém é tratado como descartável. Nem porque empobreceu. Ou porque envelheceu, adoeceu ou deixou de ser conveniente.
Casa protege da chuva. Lar protege do abandono.