A eleição é um teatro. Não no sentido pejorativo. Teatro é coisa séria. Até quando é comédia. Até mais séria que muita campanha. Tem palco, cenário, figurino, iluminação, texto, música, marcação, protagonista, coadjuvante, figurante, diretor, produtor, contrarregra e uma quantidade razoável de gente tentando entrar em cena ao mesmo tempo.
Também tem plateia. É uma das poucas peças em que a plateia decide quem continua no espetáculo. A temporada eleitoral está a todo vapor. Os atores estão em cartaz. Uns já conhecemos de temporadas anteriores. Outros fazem sua estreia. Há quem tenha mudado o figurino, o discurso, o cabelo, a fotografia e, eventualmente, até algumas convicções. Tem gente que fica cada vez mais jovem. Na foto. Quando encontra...
Faz parte da dramaturgia. Campanha eleitoral exige personagem. Muitas vezes o personagem fica melhor que a pessoa. O candidato precisa parecer próximo sem parecer invasivo, popular sem parecer artificial, preparado sem parecer arrogante, humilde sem parecer ensaiado, alegre sem exagerar, sério sem ficar antipático.
É quase método Stanislavski. O marqueteiro observa da coxia. “Mais natural.” E o candidato tenta ser naturalmente natural pela quinta vez diante da câmera. Corta. De novo. Sorrindo menos.
A campanha possui a curiosa modalidade de teatro físico. O candidato anda. Anda muito. Feira. Mercado. Rua. Calçada. Praça. Comércio. Casa. Evento. Outro evento. Mais um evento. Há candidatos que, se não forem eleitos, pelo menos chegarão ao fim da campanha com excelente condicionamento cardiovascular.
Existe uma técnica própria para o famoso abraço eleitoral. Precisa transmitir intimidade suficiente para a fotografia, mas durar pouco porque há outras oitenta pessoas aguardando intimidade semelhante.
Vêm as fotografias. O candidato tomando café, comendo pastel, abraçando criança, ouvindo idosa, conversando com trabalhador, entrando numa casa, saindo de outra. Tudo espontaneamente registrado por alguém que estava exatamente no lugar certo, com lente profissional, iluminação adequada e equipe de comunicação preparada. Espontaneidade eleitoral dá muito trabalho.
E o figurino? Camisa arregaçada continua sendo praticamente patrimônio imaterial da política brasileira. Terno comunica autoridade. Polo comunica proximidade. Camisa branca comunica quase tudo, dependendo de quem escreve a legenda. Tênis sugere disposição. Chapéu, dependendo do município visitado, pode aparecer antes mesmo do candidato terminar de descer do carro.
O cenário também fala. A campanha monta sua própria geografia. Há lugares onde o candidato precisa aparecer porque são eleitoralmente simbólicos. A feira é um deles. Não importa quantas tecnologias tenhamos inventado. Inteligência artificial, algoritmo, impulsionamento, redes sociais, transmissão ao vivo. Nada conseguiu aposentar a feira. Do ponto de vista eleitoral, entre uma banca de tomate e outra ainda mora uma parcela considerável da República.
E então começa a parte mais delicada do espetáculo. Convencer a plateia de que não é encenação. O(a) candidato(a) sobe no palanque, segura o microfone com as duas mãos e fala como se tivesse acabado de descobrir, naquele instante, os problemas do município.
Promete saúde, educação, segurança, emprego, pavimentação, água, transporte, desenvolvimento e, se houver tempo, uma nova era de prosperidade. A plateia escuta. Alguns escutam por convicção. Outros, por curiosidade.
Há quem vá pelo discurso, quem está pelo lanche, quem foi pelo cachê e quem tenha ido apenas porque o carro de som anunciou que haveria música depois. Todos fazem parte da cena. A política, aliás, sempre foi uma mistura de crença e produção. Muitos acreditam no personagem. Outros acreditam no roteiro. Há quem acredite apenas na troca de personagem depois da eleição.
O eleitor não é tão ingênuo quanto a campanha imagina. Ele percebe quando o abraço é calculado. O aperto de mão é frio. Sente quando a visita dura exatamente o tempo necessário à fotografia. Ou quando o candidato chama pelo nome alguém que acabou de conhecer.
Percebe quando a promessa vem com a mesma entonação usada na campanha anterior. Principalmente quando o candidato desaparece depois que as urnas fecham. A eleição termina, mas a plateia continua vivendo no cenário.
A feira continua. A rua, a fila do posto de saúde e escola continuam precisando de reforma. O trabalhador continua esperando o ônibus passar. Depois da apuração, não há mais fotógrafo acompanhando cada gesto. O personagem descansa. A pessoa eleita, não. É aí que o teatro deixa de ser metáfora e vira responsabilidade.
Durante a campanha, todos querem o papel principal. Depois da posse, é preciso lembrar que governar não é permanecer em cartaz. É trabalhar quando não há aplauso, resolver o que não rende vídeo, ouvir quem não aparece na fotografia e cumprir o que foi dito quando ninguém mais está segurando o microfone. Tudo isso sem deixar de “ser popular”.
A eleição é um teatro e o mandato é a crítica, que não depende do marqueteiro.