Piauí, Bahia e Lula

Há 203 anos os dois estados ajudaram a conquistar a Independência do Brasil, agora voltam a fazer História nas urnas, com vantagem de votos superior à diferença nacional.

O Brasil que não se rende está bem sintetizado em Bahia e Piauí. Juntos produziram vantagem eleitoral superior à diferença nacional que reelegeu Lula. Dois estados que, 203 anos depois das lutas pela Independência, voltam a ter participação decisiva nos destinos do país.

O Brasil inteiro votou, Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato e dois estados nordestinos apresentaram contribuição tão extraordinária que a calculadora parece ter sotaque musicado.

Na Bahia, Lula recebeu 6.485.258 votos, correspondentes a 71,31% dos válidos. Vantagem de 3.876.497 votos sobre Flávio Bolsonaro.

No Piauí, foram 1.653.989 votos, impressionantes 75,88% dos válidos, o maior percentual do país. A diferença chegou a 1.128.130 votos.

Somadas, as vantagens alcançaram 5.004.627 votos. No Brasil inteiro, Lula venceu por 4.430.191 votos.

Repetindo, apenas dois estados produziram vantagem superior à diferença nacional. Exatamente 574.436 votos além da margem que separou o vencedor do derrotado.

A Bahia entrou com o volume. O Piauí, com a proporção. Farmaram aura dentro do consórcio eleitoral nordestino sempre bem-sucedido. Claro que eleição nacional resulta da soma dos votos de todos os brasileiros. O Nordeste inteiro teve participação decisiva e cada região contribuiu para o resultado do pernambucano. O desempenho dos dois estados guarda particularidade que ultrapassa a curiosidade estatística.

Bahia e Piauí têm excelentes antecedentes. Quando o assunto é decidir os destinos do Brasil, os dois têm experiência dourada no currículo. Vamos recuar 203 anos. Quando não havia urna eletrônica, instituto de pesquisa, marqueteiro eleitoral ou rede social. O país tentava nascer e muita gente estava disposta a impedir o nascimento.

A Independência, proclamada em 7 de setembro de 1822, precisou mais que grito. Dom Pedro I levantou a espada, ganhou seu lugar nos livros e, décadas depois, um quadro monumental de Pedro Américo (tem texto sobre aqui). Uma operação de comunicação tão bem-sucedida que atravessou dois séculos sem precisar atualizar a identidade visual.

A notícia não produziu efeito imediato em todas as províncias. Portugal continuava mantendo forças militares em território brasileiro. O “grito do Ipiranga”, por mais eloquente, não dispensava a necessidade de enfrentar quem resistia à separação.

Piauí e Bahia sempre decisivos em momentos históricos. Foto: Imagem criada com IA

Bahia e Piauí assumem papéis decisivos. No Piauí, a Independência chegou com cheiro de pólvora e coragem de vaqueiro. Em 13 de março de 1823, às margens do riacho Jenipapo, em Campo Maior, agricultores, vaqueiros e trabalhadores, ao lado de combatentes cearenses e maranhenses, enfrentaram as tropas portuguesas comandadas pelo major português, João José da Cunha Fidié. O Piauí leva o 13 até na bandeira.

De um lado, soldados profissionais e armamento militar. Do outro, espingardas, foices, facões, machados e instrumentos que tinham atividades bem mais pacíficas no cotidiano sertanejo. Desigualdade brutal. Centenas de brasileiros morreram. As forças portuguesas levaram a vitória militar no confronto, mas sofreram perdas materiais e tiveram a resistência enfraquecida. Ficou vulnerável e teve que fugir para o Maranhão, Caxias. Onde foi cercado e preso meses depois. O Jenipapo não foi apenas uma vitória no campo de batalha. Foi contribuição verdadeira, heroica, consciente para a vitória de uma causa.

Na Bahia, a Independência também não se resolveu com conversa de salão. De Salvador ao Recôncavo, passando por Cachoeira, Pirajá e Itaparica, a guerra mobilizou gente de diferentes origens e condições sociais. Homens e mulheres enfrentaram as tropas portuguesas numa campanha longa, sangrenta e determinante à consolidação do país.

Maria Quitéria, Maria Felipa, Joana Angélica e tantos personagens anônimos simbolizam a resistência. São nomes e histórias que merecem ser cultivados e devem receber muito mais espaço na memória nacional. Em 2 de julho de 1823, as forças portuguesas deixaram Salvador. A Bahia celebrava uma conquista que pertencia também ao Brasil.

O Sete de Setembro anunciou a Independência, o Jenipapo ajudou a sustentar e o Dois de Julho consolidou a vitória. Dom Pedro ficou bem no cavalo da pintura. O povo enfrentou o inimigo com armas de verdade. E há quem pense que a História brasileira se resolveu inteira às margens de um riacho paulista. Inclusive os sudestinos.

Retornemos às urnas de 2026. Evidentemente, não estamos diante de acontecimentos equivalentes. Em 1823, havia guerra contra forças leais ao domínio português. Em 2026, disputa democrática entre brasileiros com projetos políticos diferentes. Não se transforma adversário eleitoral em invasor estrangeiro, nem votação em batalha militar. História não cabe maquiagem. Basta o trabalho que deram aos pintores oficiais. Mas há uma aproximação simbólica fascinante.

Os mesmos territórios que testemunharam alguns dos maiores sacrifícios pela emancipação nacional voltaram a exercer influência extraordinária sobre os caminhos do Brasil. Para os eleitores que reconhecem em Lula a expressão de defesa da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional, a votação de Bahia e Piauí adquire um significado ainda mais especial.

Uma lição sobrevive aos séculos. A Independência nunca significou liberdade plena para todos. A escravidão permaneceu, as desigualdades atravessaram gerações e muitos dos que ajudaram a construir o país sequer tiveram direito de participar das decisões seguintes. É uma tradição nacional pouco recomendável. O povo levanta as paredes, sustenta o telhado, organiza a festa e, na hora de entrar, precisa mostrar convite.

Soberania não pode ser tratada como peça de museu, propriedade de governante ou herança de família. É construção permanente, alimentada por participação popular, por direitos conquistados e pela liberdade de escolher os próprios governantes.

No Jenipapo, brasileiros enfrentaram e enfraqueceram o Império. Na Bahia, expulsaram as forças portuguesas. Em 2026, os eleitores dos estados participaram, pelo voto, e foram definitivos no resultado. Enfrentaram inimigo poderoso, o transporte público, dominado pelas elites econômicas. Teresina e Salvador foram alvo de ataques surpresas dos adversários, tentando impedir que o eleitor exercesse sua cidadania. Investigação em curso.

Há 203 anos, Bahia e Piauí ajudaram a escrever a Independência com coragem, sacrifício e sangue. Em 2026, voltam a ocupar posição decisiva na História com milhões de votos. Mudaram os tempos, os instrumentos e as circunstâncias. Felizmente não é mais preciso convocar vaqueiros para enfrentar canhões, nem organizar batalhões no Recôncavo. Bastam urnas, eleitores e a democracia funcionando.

Depois de tantos capítulos gloriosos e pouco conhecidos, os dois estados continuam lembrando ao restante do Brasil a importância para sermos a nação que construímos.

Bahia e Piauí participarem das grandes decisões nacionais não é novidade. A diferença é que, desta vez, ninguém precisou morrer para fazer a conta fechar.