PHB antes da cidade

O aniversário celebra Parnaíba dos marcos administrativos e da história escrita, mas a vida no território começou muito antes entre povos originários, rios, dunas, mangues e saberes ancestrais.

Hoje Parnaíba comemora 182 anos. Será? Não quero estragar o bolo. Muito pelo contrário. Parnaíba merece festa, orgulho e celebração. Mas a história começou quando chegou o papel timbrado?

O 14 de agosto marca a Parnaíba oficial, reconhecida como cidade no século XIX. Antes da cidade havia a vila. Antes da vila havia povoamento. E, muito antes de qualquer autoridade decidir onde começava ou terminava um município, já havia gente vivendo, pescando, navegando, criando filhos, produzindo cultura e dando sentido àquele território.

Quem veio antes não aparece na fotografia do aniversário. Muito antes dos comerciantes portugueses. O aniversário celebra o marco da cidade oficial. A história administrativa de Parnaíba começa antes de 1844. O município remonta à Provisão Régia de 1761 e sua instalação ocorreu em 1762. Portanto, mesmo considerando apenas a cronologia colonial, há diferentes datas possíveis para contar a história.

Ainda não tinha nenhum dos comerciantes portugueses, dos armazéns, das embarcações e do Porto das Barcas. Rios, mar, mangues, dunas e ilhas era território indígena. O Iphan registra a forte presença dos Tremembé na região, povo que dominava a área costeira e resistiu durante muitos anos a ocupação de suas terras.

Não eram figurantes esperando que alguém viesse fundar alguma coisa. Eram povos com seus próprios conhecimentos, relações sociais, formas de sobrevivência e modos de compreender um território extraordinariamente complexo, onde rio e mar parecem conversar o tempo inteiro.

A maior ironia está diante dos nossos olhos. Na ponta da língua. Parnaíba é uma palavra de origem indígena. Há diferentes interpretações etimológicas para o topônimo. Uma das mais difundidas o traduz como “rio de águas barrentas”.

Outras referências apontam para sentidos como “mar ruim”, possivelmente relacionados às características das águas ou às dificuldades de navegação. A divergência não diminui o aspecto mais importante. Antes de ser nome de município, de avenida, de comércio, de instituição ou de time de futebol, Parnaíba carregava a leitura indígena da paisagem e das águas.

Isso é extraordinário. A narrativa oficial quase conseguiu retirar os povos originários do centro da história, mas não conseguiu retirar a presença do nome. Todos os dias pronunciamos uma palavra indígena para chamar a cidade que tantas vezes esqueceu os indígenas que vieram antes dela.

O nome resistiu. Nome não é apenas som. É memória. A arqueologia do litoral piauiense também revela que a região conheceu ocupações humanas muito anteriores à chegada dos colonizadores. Estudos desenvolvidos no litoral identificam sítios, cerâmicas, instrumentos e outros vestígios relacionados a populações que viveram no ambiente costeiro. A historiografia sobre o Piauí reconhece a presença Tremembé na área do Delta e registra os conflitos provocados pelo avanço colonial.

Então vieram outros homens. Chegaram trazendo mercadorias, religião, costumes e uma nova ideia de território. A terra virou posse. O espaço virou propriedade. Os habitantes passaram a ser obstáculo.

A expansão colonial produziu confrontos, deslocamentos, aldeamentos e violência contra diferentes povos indígenas. Os Tremembé aparecem na documentação histórica enfrentando esse processo, inclusive em disputas entre Maranhão, Ceará e Piauí.

Uma forma de violência eficiente quase não deixa sangue aparente. O esquecimento. Apagar não significa apenas matar pessoas. Também se apaga quando muda o nome de quem conta a história. Quando o invasor vira pioneiro. Quando a ocupação vira descoberta, a resistência vira problema. A história do lugar começa no ponto em que chegam os que aprenderam a escrevê-la.

Não há problema algum em cantar parabéns a Parnaíba neste 14 de agosto. A Parnaíba dos casarões, do Porto das Barcas, dos comerciantes, navegadores, intelectuais e empreendedores merece ser conhecida e celebrada. A Parnaíba indígena sem prefeitura nem Câmara. Sem cartório nem decreto. Sem certidão de nascimento, mas super povoada. Com língua, cultura, memória e território.

Depois de tanta tentativa de apagamento, a cidade continua carregando no próprio nome a herança dos povos que estavam aqui antes dela. Os 182 anos devam ser comemorados não como a idade absoluta de Parnaíba, mas como uma de suas muitas configurações históricas.

Reconhecer quem veio antes não diminui a grandeza da cidade. Ao contrário. Parnaíba não começou quando alguém decidiu registrá-la. Ela é bem mais velha e sua história começa muito antes de nós.