Pede cachimbo?

Domingo é nome de dia, de gente, de cidade, de costume e, quem sabe, de um verbo que precisamos reaprender a conjugar para devolver ao tempo à vida o direito de não ter pressa.

Domingo não passa. Ele se instala. Entra pela casa devagar, muda o horário do café, afrouxa a roupa, estica o almoço e cria a sensação de que qualquer compromisso marcado antes das dez da manhã constitui, no mínimo, uma afronta aos direitos humanos.

Domingo tem personalidade. Atravessou séculos sem perder a solenidade. Vem do latim dies dominicus, o “dia do Senhor”. No começo era assunto sério, religioso, sagrado. Depois a humanidade foi acrescentando outras devoções. Família, futebol, praia, macarronada, churrasco, rede, televisão, cochilo e sobremesa, sem perder a sacralidade.

O domingo ficou ecumênico. Cada um adora o que pode. Também ficou curioso. Ninguém sabe se ele começa ou termina a semana. Há calendários em que aparece primeiro. Outros o colocam no fim. O domingo resolveu não escolher lado. É o sujeito que chega à festa quando a semana termina e já encontra a próxima esperando na porta.

Depois das seis da tarde, adquire uma certa melancolia. Fica com cara de despedida. A criança lembra da tarefa que não fez. O adulto lembra da reunião de segunda-feira. Alguém descobre que prometeu começar a dieta amanhã. Outro percebe que há camisa a passar.

O relógio não precisa dizer nada. A segunda começa a rondar a casa. Mas antes dela existe uma longa história. O costume do repouso dominical atravessou religiões, impérios e leis. Em 321, o imperador romano Constantino determinou descanso em grande parte das atividades no chamado dia do Sol. Séculos depois, o direito ao repouso semanal passaria a integrar legislações trabalhistas mundo afora.

No Brasil, a Constituição garante repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos. O cidadão ou cidadã numa rede depois do almoço pode parecer entregue à mais absoluta inutilidade, mas está, em certo sentido, exercendo uma conquista civilizatória. Respeitem.

O descanso nem sempre foi tão óbvio. A humanidade precisou trabalhar muito para conquistar o direito de não trabalhar. Ainda assim, temos feito esforço admirável para estragar a invenção. O celular chegou. Vieram e-mail, grupo de trabalho, mensagem “rapidinho”, planilha que alguém manda “só para você dar uma olhada”, aviso de reunião, a agenda de segunda-feira.

Pouco a pouco, fomos aprendendo a utilizar o domingo para preparar a segunda. Organizamos a semana, respondemos pendências, planejamos compromissos e fazemos listas. Quando percebemos, transformamos o descanso em sala de espera do trabalho. Desperdício histórico.

Domingo deveria ser verbo. Domingar. A língua portuguesa ainda não deu ao verbo a importância que merece, mas todos sabemos conjugá-lo. Eu domingo. Tu domingas. Ele cochila. Nós almoçamos. Vós repetis a sobremesa. Eles dizem que amanhã começam a dieta.

A cultura brasileira dominical é particularmente rica. Durante décadas, o domingo teve trilha sonora própria. Rádio ligado no futebol, televisão fazendo companhia à família, programas de auditório, música, humor. Havia horários que não precisavam de relógio. Bastavam os sons da casa.

 Descrição da imagem criada com IA: Imagem de uma varanda iluminada pelo sol da manhã. Ao centro, uma rede clara atravessa o ambiente. No chão, um cachorro marrom dorme sobre um tapete; à direita, um gato repousa sobre um banco de madeira. Há uma poltrona, poucas plantas e uma pequena mesa com uma xícara de café e frutas. Ao fundo, aparecem casas antigas, palmeiras e a torre de uma igreja, compondo uma cena calma, acolhedora e típica de um domingo sem pressa. 

A tampa batendo na panela anunciava o almoço. A transmissão esportiva anunciava a tarde. A música de determinado programa de televisão anunciava que infelizmente o domingo estava acabando.

O brasileiro inventou uma gastronomia específica para o dia. Comidas que durante a semana parecem excessivas ganham autorização dominical. No domingo, ninguém serve apenas arroz.

Há sempre um complemento, uma travessa, uma farofa inexplicável, uma sobremesa cuja existência não havia sido anunciada e uma pessoa insistindo, “Coma mais um pouquinho”. É assim que as famílias demonstram amor e sabotam exames laboratoriais.

Existe ainda a instituição histórica chamada visita de domingo. Antes do celular, pessoas simplesmente apareciam. Não mandavam mensagem perguntando se você estava em casa. Descobriam pessoalmente. Chegavam. Sentavam. Tomavam café. Conversavam durante horas. Hoje, tocar a campainha sem avisar pode provocar investigação policial.

Os tempos mudaram. Algumas tradições permanecem, inclusive a parlenda misteriosa. “Hoje é domingo, pé de cachimbo”. Ou seria “Hoje é domingo, pede cachimbo”? Pesquisadores da língua, folcloristas e gerações inteiras de avós envolvem-se na discussão.

A parlenda não está muito preocupada com lógica. Depois do cachimbo vem o ouro, depois o touro, depois o buraco e, quando a gente percebe, está diante de uma cadeia de acontecimentos que faria qualquer roteirista pedir revisão. A infância aceita melhor o absurdo. Por isso era mais fácil domingar quando éramos crianças.

Domingo também virou nome de gente. Domingos. O nome nasce da mesma raiz latina de domingo e carrega a ideia de alguém “pertencente ao Senhor”. Foi muito difundido no mundo cristão e atravessou séculos.

O Brasil teve Domingos importantes. Domingos da Guia, extraordinário jogador de futebol. Domingos Olímpio, escritor de Luzia-Homem. Domingos Montagner, ator que veio do circo e do teatro antes de conquistar a televisão. O Piauí tem o município Domingos Mourão.

Poucos dias da semana conseguiram tamanha promoção. Não conheço nenhum cidadão respeitável chamado Quarta-feira. Tinha o Sexta-feira, parceiro de Robinson Crusoe no famoso livro de Daniel Defoe.

O domingo sobreviveu porque representa algo que estamos desaprendendo. Pausa. Não a pausa produtiva. Não a parada recomendada para que depois trabalhemos melhor. A pausa inútil. A conversa sem finalidade. O cochilo sem culpa. O café demorado. A música ouvida sem fazer outra coisa ao mesmo tempo. A cadeira na calçada. A visita. O almoço que atravessa a tarde. O direito de olhar para o teto e não sentir nenhuma culpa por isso.

Vivemos na época que conseguiu transformar descanso em desempenho. É preciso descansar direito. De verdade. Dormir a quantidade certa de horas. Meditar o número certo de minutos. Relaxar com eficiência.

Hoje é domingo. Não importa muito se pede cachimbo, pé de cachimbo ou absolutamente cachimbo nenhum. Importa lembrar que nem todo espaço vazio precisa ser preenchido e nem toda hora precisa produzir alguma coisa. Mensagem pode ser respondida sem ansiedade. Nem todo domingo precisa render. Não é obrigado a nada. Basta domingar. Domingue!