O Ibama, os satélites, os códigos ambientais e as grandes conferências internacionais sobre o clima chegaram muito depois do Curupira.
Quando o Brasil ainda nem atendia por esse nome, os povos originários já sabiam que a floresta precisava de guardião. Não porque a natureza fosse fraca, mas porque a cobiça humana sempre demonstrou extraordinária capacidade de perder qualquer limite.
No dia 17 de julho, o Brasil celebra o Dia de Proteção às Florestas e também o personagem que se tornou símbolo da missão. O menino de cabelos de fogo, assobio assustador e pés virados para trás.
O detalhe dos pés é uma obra-prima da imaginação brasileira. O Curupira deixa rastros que apontam para uma direção enquanto ele segue por outra. Confunde caçadores, madeireiros e invasores. Faz o agressor perder o rumo dentro da mata que pretendia dominar. Mais atual do que nunca.
O desmatamento pode aparecer vestido de desenvolvimento. A devastação pode ser apresentada como investimento. A destruição de nascentes pode ganhar o nome elegante de empreendimento. A floresta derrubada costuma desaparecer primeiro dos mapas, depois dos discursos e, finalmente, da memória.
Troca-se a palavra e tenta-se limpar o crime. O Curupira conhecia o truque antes de todos nós. Uma das primeiras referências escritas ao personagem aparece numa carta de José de Anchieta, datada de 1560. O registro colonial descrevia uma entidade temida nas matas pelos indígenas. Muito antes de ser reduzido a figura de livro escolar, fantasia de festa ou personagem de desenho animado, o Curupira era parte de uma visão de mundo em que a floresta tinha força, vontade, mistério e mecanismos próprios de defesa.
Não era decoração folclórica. Era advertência. Quem entrasse na mata deveria respeitar seus animais, seus caminhos e seus segredos. Quem caçasse por necessidade seguia a lógica. Quem matasse por perversidade ou destruísse por ganância poderia sofrer as consequências.
A lenda estabelecia o que o mundo moderno tenta traduzir em leis, licenças, planos de manejo, unidades de conservação e metas climáticas. Limites. O problema é que a humanidade se tornou especialista em ultrapassá-los e, logo depois, criar uma comissão para investigar o estrago.
Quando se fala em floresta, o pensamento brasileiro costuma viajar imediatamente à Amazônia. É compreensível. Trata-se da maior floresta tropical do planeta e de um patrimônio essencial para o equilíbrio ambiental. Mas a proteção precisa alcançar todas as formas de vegetação nativa. Cerrado, Mata Atlântica, manguezais, restingas, matas de cocais e também a nossa Caatinga.
Floresta não é apenas o cenário verde, úmido e fechado que aparece nos documentários. A Caatinga também guarda vida. Guarda sementes, raízes, frutos, aves, répteis, mamíferos, insetos, plantas medicinais, conhecimento tradicional e estratégias de sobrevivência construídas durante séculos. Sua vegetação pode parecer seca para quem olha sem atenção, mas está realizando silenciosamente a sofisticada operação da natureza de permanecer viva onde a água é pouca.
O IBGE aponta que a Caatinga ocupa cerca de 63% do território piauiense. É, portanto, parte central de nossa paisagem, de nossa economia, de nossa cultura e de nossa própria maneira de existir. Não é mato sem serventia nem vazio à espera de exploração. Não é atraso vegetal.
A Caatinga é uma biblioteca escrita em espinhos, cascas, raízes e resistência. Cada espécie aprendeu alguma coisa sobre o sol, a escassez e o tempo. Derrubar a vegetação significa destruir páginas de conhecimento que talvez ainda nem tenhamos conseguido ler.
A retirada da cobertura vegetal afeta os animais, o solo, o clima e a qualidade da água. Em regiões naturalmente marcadas pela baixa disponibilidade hídrica, como o semiárido, o impacto torna-se ainda mais grave.
Quem defende a floresta defende a água, comida e permanência das famílias no território. Quem preserva o território preserva também as histórias, as festas, os saberes, os modos de plantar, as receitas, os remédios tradicionais e as palavras que nasceram da relação entre o povo e a paisagem. Meio ambiente não é um assunto separado da vida. É a própria vida antes de receber esse nome.
O Curupira compreendia isso perfeitamente. Sabia que não existe economia funcionando numa terra arrasada. Não existe agricultura duradoura sem solo. Não existe cidade saudável sem árvores. Nem povo forte carregando baldes em busca da água que desapareceu.
A floresta presta serviços que nem nos damos conta. Refresca, protege, abriga, alimenta, infiltra água no solo, reduz erosões, conserva espécies e ajuda a regular o clima. Nós recebemos tudo gratuitamente e, em agradecimento, ainda perguntamos quanto dinheiro renderia derrubá-la. Um curioso modelo de inteligência.
O Dia de Proteção às Florestas não pode ser apenas mais uma data em que órgãos públicos publicam fotografias verdes, empresas trocam temporariamente a cor de suas logomarcas e autoridades plantam mudas diante das câmeras. Plantar árvore e permitir a derrubada de centenas longe das lentes não é política ambiental. É jardinagem de reputação.
Proteger exige fiscalização, educação, pesquisa, recuperação de áreas degradadas e participação das comunidades que conhecem o território. Exige valorizar povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares, quebradeiras de coco, extrativistas e todos aqueles que aprenderam a retirar da natureza o necessário sem lhe arrancar o futuro. Também exige muita coragem para enfrentar interesses poderosos.
O Curupira não era conciliador com quem destruía a mata. Não convidava o invasor à mesa de diálogo enquanto ele ligava a motosserra. Assobiava, confundia os caminhos e colocava o agressor para correr. O personagem é tão necessário hoje para nossas instituições, que aprenderam a falar baixo diante de quem destrói alto. Em pleno século XXI, o velho menino da floresta com os pés virados para trás não caminha na direção errada.
Chamamos de progresso o que seca rios, empobrece o solo, expulsa comunidades e torna as cidades cada vez mais quentes. Celebramos a velocidade das máquinas sem perguntar o que elas estão deixando caído pelo caminho. Agimos como se a natureza fosse obstáculo ao desenvolvimento, quando ela é a base sem a qual desenvolvimento algum permanece de pé.
O Curupira não é lembrança infantil de um Brasil antigo. É recado do passado dirigido ao futuro. A floresta não precisa apenas de homenagens. Precisa de guardiões, cidadãos, governos, escolas, empresas e comunidades dispostos a impedir que a ganância transforme diversidade em cinzas.
Quando a última árvore cair, não haverá assobio encantado capaz de nos fazer encontrar o caminho de volta. A grande sabedoria dos pés invertidos do Curupira lembra que, diante da destruição, voltar atrás não é retrocesso. É sobrevivência.