Em 4 de setembro de 1889, algumas mulheres de Teresina fizeram uma coisa que, vista de hoje, parece simples Saíram de casa para pedir um teatro. Simples é modo de dizer. Mulheres não votavam, não eram chamadas a decidir os destinos da cidade e quase sempre entravam nos registros públicos pela porta lateral. Quando entravam. Ainda assim, naquela noite, resolveram ocupar o proscênio.
A movimentação teria partido da casa de Lavínia de Holanda Fonseca. Dali, um grupo seguiu até o Palácio do Governo para reivindicar ao presidente da Província, Teófilo Fernandes, uma casa de espetáculos digna da jovem capital.
Teresina tinha apenas 37 aninhos. Era uma cidade ainda montando cenário em espaço novo, acertando figurino, descobrindo marcações e tentando definir o próprio papel naquele pedaço do Brasil. Aquelas mulheres perceberam cedo que, para ser capital, não bastavam repartições, igrejas, ruas e solenidades. Era preciso palco.
A história guardou alguns nomes e economizou outros, como costuma acontecer quando mulheres atravessam o século XIX. Lavínia aparece com maior nitidez. Mulher de posição social destacada, ligada à vida católica e à elite teresinense, era casada com o farmacêutico Collect Antônio da Fonseca. Sua presença não se resumiu àquela noite. Anos depois, os jornais ainda registrariam sua atuação social e religiosa. A antiga Chácara Lavinópolis, propriedade da família, carregaria seu nome. Mas o que importa é que Lavínia não parece ter sido apenas anfitriã de uma reunião elegante entre senhoras. Ela estava no movimento. E continuou nele.
Quando a planta inicialmente apresentada para o teatro desagradou, Lavínia e Hermelinda Teixeira de Holanda voltaram à cena. Em julho de 1890, as duas entregaram ao governo outra planta, oferecida pelo engenheiro Alfredo Modrak, que acabaria adotada na construção. Não foram apenas pedir um prédio e voltar para o chá. Acompanharam. Opinaram. Intervieram. Em linguagem teatral, não ficaram na plateia. Meteram-se na direção.
Hermelinda é ainda mais intrigante. A história lhe reservou papel importante e biografia pequena. Surge repetidamente como uma das líderes da mobilização, ao lado de Lavínia, mas pouco sabemos hoje sobre sua vida. É uma ausência eloquente. Uma das mulheres responsáveis pela criação do mais emblemático teatro do Piauí ainda espera que alguém vá aos arquivos e lhe devolva mais do que algumas linhas.
História não é dramaturgia. Quando falta documento, não cabe inventar a fala. O silêncio também informa. Outros nomes aparecem relacionados ao movimento e, com maior segurança, à cerimônia de lançamento da pedra fundamental, em 21 de setembro de 1889, como Maria Amélia Rosa, Elvira Freire, Amália Freire e Francisca Mendes. Sobre elas, os rastros são ainda mais tênues. Sabemos os nomes, que estavam ali, mas suas histórias praticamente desapareceram atrás do pano de boca do tempo.
Tão importante quanto restaurar parede, recuperar a biografia destas mulheres e trazê-las à luz da ribalta social. Procurar inventários, jornais, registros paroquiais, correspondências, famílias, arquivos. Dar corpo a quem a memória transformou em elenco de apoio. Elas não eram figurantes. Sem elas, talvez nem houvesse espetáculo. Não ali. Naquele prédio da Praça Aquidabã.
A composição da comitiva revela muito sobre o Brasil daquele tempo. A iniciativa era feminina, mas a interlocução com o poder passava por homens influentes. Gabriel Luís Ferreira (aparece ligado à comissão e teria falado em nome das senhoras. Era advogado, magistrado, jornalista, professor, político e logo depois chegaria ao governo do Piauí. Assumindo em 28 de maio de 1891 e deixando o poder em 21 de dezembro de 1891.
Francisco de Sousa Martins também aparece nas pesquisas como um dos bacharéis que davam respaldo institucional à movimentação. As mulheres fizeram o movimento, mas ainda precisavam de homens com trânsito nas coxias do poder para ajudar a abrir a cortina.
Era 1889. Não devemos julgar o cenário com a iluminação de 2026. Também não precisamos apagar a cena. Há relatos de que a visita terminou em festa. O governo acolheu a ideia, destinou recursos e a comemoração atravessou a noite. Poucos dias depois, as senhoras ainda ofereceriam um baile ao presidente da Província. Política cultural com valsa. Era o hype da época.
A construção do teatro não seguiu sem tropeços. Houve debates sobre localização, planta, moralidade, costumes. Como sempre. Mulheres católicas chegaram a defender que o edifício não ficasse próximo demais da Igreja do Amparo. Um jornal ironizou a contradição entre senhoras que queriam uma casa de espetáculos e, ao mesmo tempo, demonstravam certa desconfiança moral diante dela.
A história é um deleite. Elas queriam o teatro. Talvez não o quisessem tão perto da missa. A humanidade é assim. Deseja a modernidade, desde que ela não estacione na porta.
O prédio seria inaugurado em 21 de abril de 1894. Já nasceu carregando a ironia que atravessa a sua história. Teresina construiu um teatro antes de terminar de construir as condições para fazer teatro dentro dele. Na inauguração, faltavam elementos importantes da estrutura cênica. Não havia grupo local permanente à altura do espaço, a maquinaria era insuficiente e a casa ainda carecia de recursos básicos. A cidade conquistara o edifício. O teatro, como linguagem, teria de conquistá-lo.
Esse é o grande paradigma do 4 de Setembro. Não seria justo dizer que ele não serviu ao teatro. Serviu, e muito. Por ali passaram gerações de atores, atrizes, diretores, dramaturgos, grupos, festivais e montagens que ajudaram a formar a identidade cultural do Piauí. Ninguém me contou. Além de ler um tiquinho, estive em cena nos momentos dourados do Theatro.
Aliás, hoje faz 30 anos que estreava o espetáculo “Auto do Lampião no Além”, de José Gomes Campos. A peça chegou à ribalta no dia do aniversário da maior casa de espetáculos do estado. Foi sua principal atração na festa de aniversário de 107 anos.
A montagem do grupo Harém de Treatro, com direção de Arimatan Martins e grande elenco, representou o Piauí intensamente durante dois rápidos anos de sua existência. Com mais de uma centena de apresentações em importantes palcos de capitais brasileiras e sempre abocanhando muitos prêmios em todos os festivais que participou, marcou com brilho o jeito piauiense de encenar em alto nível.
Mas também é verdade que, muitas vezes, o teatro teve que disputar o próprio Theatro. O prédio recebeu cinema, formaturas, bailes, solenidades, concursos de miss, música, cerimônias e outras tantas ocupações. Nada disso é pecado. Uma casa de espetáculos deve ser plural. Agora quando o palco vira apenas endereço e deixa de ser organismo...
Durante décadas, a atividade cinematográfica teve peso enorme no espaço. Em meados do século XX, Paschoal Carlos Magno passou por Teresina e fez críticas duras às condições à prática teatral. Faltavam equipamentos básicos, iluminação, estrutura de palco.
Mudam-se os atos. Algumas rubricas permanecem. Vieram reformas, inclusive a grande intervenção dos anos 1970, que devolveu vigor ao equipamento e ajudou a reacender a produção cultural da cidade. O Theatro voltou a receber música, espetáculos, grupos, temporadas. Foi um resgate. Obrigado, governador Alberto Silva. Ele foi a mola que até hoje consegue impulsionar movimento.
Uma pergunta nunca saiu de cena. E sempre ressurge com um novo figurino. Para que serve o Theatro 4 de Setembro? A resposta rápida é: arte. Parece pouco. Ele precisa existir para que a arte aconteça, e não apenas passe por ali. Essa é a enorme diferença.
Uma casa de espetáculos pode receber produção pronta, abrir bilheteria, acender a luz e entregar a chave do camarim. Um teatro precisa produzir vida teatral. Precisa ter ensaio. Temporada. Formação de plateia. Residência artística. Dramaturgia. Pesquisa. Oficina. Memória. Intercâmbio.
Precisa permitir que um grupo piauiense permaneça tempo suficiente em cartaz para descobrir o espetáculo depois da estreia. Todo ator sabe que há montagem que só começa a ficar realmente boa quando já estão pensando em desmontar o cenário. O palco precisa respirar.
Hoje, o emblemático prédio está fechado. Passa por intervenções. Há contratação para a primeira etapa da reforma das instalações elétricas do Complexo Theatro 4 de Setembro e Clube dos Diários. A licitação teve valor estimado superior a R$ 723 mil e resultou em contrato de R$ 639 mil.
Há também uma intervenção muito maior na climatização. O processo foi estimado em quase R$ 4 milhões e resultou em contratação na casa dos R$ 3,7 milhões. São obras necessárias. Ninguém precisa defender nostalgia elétrica. Patrimônio histórico também precisa de instalação segura. Climatização em Teresina já ultrapassou há muito a categoria de luxo. Está bem próxima dos direitos fundamentais.
Que venha o ar-condicionado, a fiação e a segurança. E que o camarim deixe de transformar maquiagem em experiência de fusão nuclear. Eu não quero crer numa intervenção que vai “enfeiar” e invisibilizar a beleza das linhas arquitetônicas da edificação. Querem trazer a parte lateral, até a altura do Cine Rex. Ficando lado a lado com o Café ArtBar. Já tem gente dizendo que vão mutilar a estética lateral direita do prédio, prejudicando que seja vista em seu esplendor. Sendo substituído por vidro e aço. Frios.
Seria pouco reformar apenas o que fica atrás das paredes. É uma boa oportunidade para repensar o próprio conceito do Theatro 4 de Setembro. Nas discussões recentes sobre as intervenções apareceram ideias arquitetônicas, recursos de acessibilidade e novos usos. Tudo merece atenção. Artistas também perguntam pelo palco, pela iluminação cênica, o som, a cabine técnica, as estruturas que fazem a casa deixar de ser salão para se tornar teatro.
A reforma do teatro não pode tratar a cena como detalhe decorativo. O palco não é apêndice do prédio. É a razão do prédio existir. Seria uma boa oportunidade para fazer duas reformas simultâneas. Uma de engenharia. Outra de pensamento. A primeira troca fios, máquinas, dutos e equipamentos. A segunda pergunta que política artística deve ocupar o edifício quando o pano subir outra vez. Não basta reabrir. É preciso saber para quê.
Em 4 de setembro de 1889, um grupo de mulheres atravessou Teresina para cobrar do poder público uma casa para as artes. Cento e trinta e sete anos depois, o edifício que eternizou aquela reivindicação está novamente em obras.
É bonito imaginar Lavínia, Hermelinda, Maria Amélia, Elvira, Amália e Francisca observando a cena. Talvez estranhassem o ar-condicionado. Certamente aprovariam a eletricidade. Desconfio que, depois de examinarem tudo, fariam a mesma pergunta que atravessa esta história desde o primeiro ato. E o teatro?
A casa não precisa apenas voltar mais bonita, mais segura ou mais confortável. O Theatro precisa voltar mais teatro. O resto é cenário.