A sede pelo poder é real. Atravessado pelo flagelo da seca, o Piauí mostra o poder da sede na eleição 2026.
O Piauí entra na reta mais quente da campanha eleitoral carregando problemas antigos e uma urgência que vai se impondo quase sem pedir licença. Saúde já ocupou o centro do debate. Segurança Pública veio logo depois. Agora, em muitas cidades e bairros, a conversa começa de maneira ainda mais elementar.
Água é tudo. A frase parece simples até o dia em que a torneira não responde. Tem água? Pesquisa do DataSenado feita em 2024, com 800 piauienses, oferece importante retrato estadual das prioridades do cidadão. Saúde aparecia disparada, com 33% das respostas. Segurança Pública vinha com 17% e corrupção com 15%. É preciso deixar claro que são números de 2024, não uma fotografia da eleição de 2026. Mas ajudam a enxergar de onde estamos partindo.
A falta d’água tem uma qualidade política muito particular. Saúde pode ganhar dramaticidade quando alguém precisa de atendimento. Segurança, quando acontece um crime. A ausência de água entra em casa todos os dias. Não precisa de discurso nem de debate. Mas, no programa eleitoral, basta abrir a torneira e o cenário fica mais severo.
O El Niño está configurado desde junho e o mais recente painel conjunto dos órgãos federais aponta mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte entre setembro e novembro. Para Norte e Nordeste, a tendência indicada é de trimestre mais seco. As temperaturas devem permanecer acima da média em praticamente todo o país. Não é pouca coisa para o estado que conhece a seca pelo nome, pelo cheiro da terra e pelo tamanho da conta.
Somente ontem, 15 de setembro, Jacobina do Piauí, São José do Piauí, Novo Oriente do Piauí, São Miguel do Tapuio e Francisco Macedo tiveram situação de emergência reconhecida pelo Governo Federal em razão da seca. O calor deixou de ser conversa de elevador e virou infraestrutura.
A água do Piauí mudou de mãos. O Estado concedeu à iniciativa privada, por 35 anos, a operação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. O contrato com a Águas do Piauí prevê cerca de R$ 9,6 bilhões em investimentos, cobertura de água tratada para 99% da população até 2033 e coleta e tratamento de esgoto para 90% até 2040.
No papel, é uma transformação monumental. Na torneira, a população tem pressa. Daí surge um problema político que a campanha não poderá simplesmente contornar depois da transição para a nova concessionária. Tornaram-se recorrentes as reclamações públicas sobre interrupções no fornecimento, abastecimento irregular, demora em reparos e problemas de saneamento.
Em março deste ano, a Assembleia Legislativa aprovou audiência pública para discutir a prestação dos serviços depois de registrar “recorrentes manifestações da população” sobre falta d’água, irregularidade no abastecimento e demora nos reparos. Em abril, a própria Assembleia encaminhou pedido de providências urgentes por falta d’água em São Francisco de Assis do Piauí. Em junho, voltou a haver cobrança pública sobre a concessionária.
Em Lagoa do Piauí, moradores disseram em julho que as interrupções se tornaram mais frequentes depois da mudança da concessão. É relato dos moradores, não conclusão técnica sobre causa e efeito, mas revela uma percepção que não deve ser desprezada numa eleição.
É cedo para julgar um contrato que atravessará três décadas. Mas não é cedo para cobrar água. A concessão pode argumentar que herdou uma rede antiga, deficiências históricas, perdas, sistemas precários e um desafio gigantesco de universalização. O consumidor responde com argumento ainda mais curto. “Eu tenho sede.”
A promessa da iniciativa privada não era apenas administrar a escassez com outro CNPJ. Era investir, melhorar eficiência, ampliar o sistema e entregar um serviço mais regular. A população percebe piora antes de enxergar avanço. Temos um problema. Um big problemão.
A seca explica muita coisa, mas não pode explicar tudo. O debate eleitoral precisa amadurecer. Durante décadas, o Nordeste conviveu com a expressão terrível e cirúrgica “indústria da seca”. A calamidade serviu, historicamente, a estruturas de poder. Recursos extraordinários chegavam, obras apareciam, emergências se repetiam e a solução definitiva morava sempre na eleição seguinte.
O sertanejo de hoje não é o personagem condenado a esperar o céu decidir sua vida. Há cisternas, adutoras, grandes reservatórios, perfuração de poços, monitoramento por satélite, previsão climática sofisticada, dessalinização, redes de abastecimento e capacidade técnica incomparavelmente superior à de meio século atrás. Mudou a compreensão do problema. Durante muito tempo se falou em combater a seca. Hoje sabemos que ninguém combate o clima.
É preciso aprender a conviver com o semiárido e administrar a água.
A velha indústria da seca tem sobrevivido. A emergência vira rotina. Os decretos municipais de calamidade pública são normalizados. Carro-pipa é indispensável quando alguém está com sede. Não pode virar política hídrica permanente. Poço emergencial resolve o hoje, mas não necessariamente resolve o amanhã. Barragem sem adutora pode guardar água longe de quem precisa. Adutora sem manutenção pode ser apenas um monumento comprido. Obra que atravessa sucessivas campanhas sem terminar corre o risco de transportar mais voto do que água.
Uma novidade concreta merece atenção. O Piauí voltou oficialmente ao mapa da Transposição do Rio São Francisco. O chamado Canal de Integração do Sertão Piauiense, conhecido também como Eixo Oeste, está novamente em estudo. A proposta pretende levar águas da região de Sobradinho, na Bahia, em direção ao semiárido piauiense, com estudos preliminares apontando alcance de 24 municípios do Piauí e potencial para beneficiar mais de um milhão de pessoas.
O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica, Ambiental e Social, EVTEAS, começou em 2025 e tem conclusão prevista para novembro de 2026. Há movimentação para incluir recursos no orçamento de 2027 destinados à elaboração do projeto executivo.
Depois vem a parte menos fotogênica e mais importante. Projeto executivo. Licenciamento. Orçamento. Contratação. Obra. Dinheiro para operar. E manutenção. Então, quando a água chega? A resposta séria, neste momento, é que ainda não existe prazo oficial.
Não há base técnica hoje para prometer que o canal estará funcionando em dois ou três anos. Obra dessa dimensão é necessariamente plurianual. Novembro de 2026 encerra uma etapa de estudo. Não inaugura canal. Se tudo caminhar conforme pretendido, 2027 poderá ser o ano do projeto executivo e do avanço das etapas seguintes. Em outras palavras, 2027 pode ser ano de projeto. Ainda não é ano de água.
O que mudou em relação à velha indústria da seca é que hoje dispomos de tecnologia, conhecimento, instrumentos regulatórios e dinheiro público capazes de substituir improvisação por planejamento.
O Piauí possui rios, aquíferos, barragens, poços, chuva concentrada em determinados meses e possibilidade de integração de sistemas. O problema não é simplesmente afirmar que não existe água. É fazer com que a água existente seja armazenada, preservada, distribuída e levada até onde vive gente.
A emergência climática transforma o tema numa das grandes questões de Estado das próximas décadas. Não é apenas matar a sede. Água significa agricultura, comida, saúde, higiene, escola funcionando, indústria, geração de emprego, criação de animais, permanência das famílias no interior. Significa até energia, porque cada grau a mais na temperatura aumenta o esforço necessário para tornar a vida minimamente suportável.
A eleição para o Governo do Piauí ganhou uma pauta diferente das anteriores. Saúde e Segurança Pública continuam essenciais. Educação, emprego e combate à corrupção continuam fundamentais. Mas a crise hídrica e a emergência climática começam a juntar várias agendas em uma só.
Sem água piora a saúde, cai a produção, sobe o custo dos alimentos, aumenta a pobreza, cresce a pressão sobre as cidades e a desigualdade ganha mais uma torneira para chamar de sua.
É possível que as pesquisas ainda não tenham capturado integralmente a mudança. A população talvez nem responda “emergência climática” quando for entrevistada. Pode dizer apenas que está quente demais. Fora do normal. O açude baixou. O poço secou. A água não chegou. Ou algo ainda mais simples. Depois que mudou, piorou.
A eleição discute muitas coisas. São muitas propostas. A força da retórica de cada um defende os propósitos dos candidatos com tintas fortes. Mas, quando for abrir a torneira e não sair nada, todo o restante fica mais difícil de explicar.