As listas de boicote político, o avanço das células neonazistas e os sinais de intolerância revelam um Brasil que precisa enfrentar seus fantasmas antes que eles devorem a democracia.
A eleição acabou. A democracia venceu nas urnas, mas uma parcela dos derrotados está disposta a continuar a guerra por outros meios. Agora, para comprar pão, tomar café ou abastecer o carro, há quem queira saber primeiro em quem votou o proprietário. A liberdade de mercado ganhou um fiscal ideológico. É a turma que passou anos defendendo a “liberdade acima de tudo!”
No Rio Grande do Sul, listas de estabelecimentos comerciais cujos proprietários supostamente apoiaram Lula passaram a circular nas redes sociais, acompanhadas de campanhas de boicote. Caxias do Sul, Santa Maria, Bento Gonçalves, Torres e outras cidades aparecem entre os municípios atingidos. Há também denúncias de estímulos à demissão de trabalhadores identificados com o PT. Até ontem, 27 de outubro, o Ministério Público do Trabalho havia recebido 2.364 denúncias de assédio eleitoral em todo o país.
O voto, direito constitucional protegido pelo sigilo, transformou-se em motivo para retaliação. Virou atestado de antecedentes ideológicos. O freguês não precisa saber se o restaurante respeita as normas sanitárias. Precisa descobrir se o cozinheiro votou no candidato aprovado pelo tribunal das redes sociais.
A História conhece bem o cardápio. Em 1º de abril de 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, o regime nazista organizou um boicote nacional contra empresas e profissionais judeus. Integrantes das tropas de assalto intimidavam consumidores diante dos estabelecimentos. A campanha pretendia isolar economicamente a população transformada em inimiga por sua origem.
Não estamos diante de situações historicamente equivalentes. Na Alemanha, tratava-se de uma política racial de Estado que integraria um processo de perseguição e extermínio. No Brasil, os boicotes noticiados são iniciativas de militantes e apoiadores políticos. Mas os mecanismos de identificação, constrangimento e exclusão econômica apresentam semelhanças preocupantes. O autoritarismo não precisa começar fechando o Congresso. Começa tentando fechar a padaria do adversário.
O mapa brasileiro da intolerância oferece razões adicionais para preocupação. A antropóloga Adriana Dias, referência nacional no estudo do neonazismo, identificou 72 células neonazistas em 2015. Eram 334 em 2019, 530 em 2021 e impressionantes 1.117 em 2022. Em sete anos, o número de núcleos detectados em seu monitoramento, principalmente digital, multiplicou-se por mais de quinze.
Santa Catarina liderava o levantamento de 2022, com 320 células. São Paulo aparecia com 268, Paraná com 197 e Rio Grande do Sul com 159. Somados, os três estados sulistas concentravam mais de 60% dos grupos identificados no Brasil. Blumenau, sozinha, registrava 63 células. O Piauí também aparecia no mapa, com duas.
São dados históricos, não uma contagem atualizada de 2026. Mesmo assim, ninguém deveria considerar tranquilizador descobrir que o país acumulou tamanho contingente de organizações dedicadas à propagação de ideologia responsável por alguns dos maiores crimes contra a humanidade.
A expansão mais intensa identificada pela pesquisa “coincidiu” com o governo Jair Bolsonaro. A simultaneidade não comprova, isoladamente, a relação de causa e efeito. Entretanto, estudos sobre a extrema direita brasileira investigam como a normalização do discurso de ódio, a retórica de eliminação do adversário e a circulação de ideias supremacistas favorecem ambientes de radicalização.
É preciso distinguir o eleitor conservador, o simpatizante do bolsonarismo e o militante neonazista. São categorias diferentes. Mas também é necessário perguntar quais discursos políticos abrem espaço para extremistas, o que suas lideranças fazem para estabelecer limites ou promover a tolerância.
O Sul brasileiro merece análise igualmente cuidadosa. Sua formação, marcada por importantes correntes migratórias europeias, também é profundamente indígena, negra e mestiça. A região possui tradições democráticas, movimentos populares e diversidade cultural riquíssima. Não existe fundamento para atribuir coletivamente tendências neonazistas a seus habitantes ou aos descendentes de imigrantes.
Entretanto, movimentos separatistas que defendem a identidade sulista apartada do restante do Brasil exigem atenção quando a diferença regional se transforma em pretensão de superioridade. O orgulho da própria terra é legítimo. O desprezo pela terra dos outros é outra história. Ninguém fica mais europeu por tratar nordestino como estrangeiro dentro do próprio país.
Enquanto o debatemos, os símbolos extremistas continuam aparecendo. No último domingo, 25 de outubro, uma mulher foi filmada fazendo a saudação nazista no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, no Rio de Janeiro, durante o segundo turno presidencial. Questionada por um eleitor, perguntou se ele era comunista. Ao ouvir que era judeu, respondeu, segundo o registro policial, “pior ainda”.
A Polícia Civil identificou a mulher e investiga o episódio como injúria por preconceito. A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro repudiou a manifestação. Já viu a cena? É perturbadora. Não vou trazer link para cá. Não vou dar mais palco. Mas é facilmente encontrada numa pesquisa em qualquer motor de busca. O gesto associado à perseguição e ao extermínio de milhões de pessoas foi reproduzido num espaço destinado ao exercício do voto, uma das maiores conquistas da humanidade contra o autoritarismo. A intolerância não estava escondida num porão. Foi à luz do dia, diante de eleitores e agentes públicos.
Não são apenas gestos. Em março de 2026, a Polícia Civil de Santa Catarina realizou a Operação Salvaguarda, que investigou adolescentes suspeitos de planejar ataques a escolas e disseminar referências neonazistas. Foram apreendidos dispositivos eletrônicos, armas brancas e materiais com simbologia nazista. O episódio evidencia que a radicalização pode ultrapassar a propaganda e alcançar ameaças concretas à segurança.
A legislação brasileira criminaliza a incitação ao preconceito racial, étnico e religioso e a propaganda destinada à divulgação do nazismo. Mas ter lei não basta. É preciso investigar, responsabilizar, educar e prevenir.
O assunto exige resposta muito mais ampla do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e das câmaras municipais. Não apenas com discursos indignados depois de cada escândalo, mas com políticas permanentes de enfrentamento ao extremismo, investimentos em educação histórica e fiscalização das redes utilizadas para recrutamento e propaganda.
O Conselho Nacional dos Direitos Humanos desenvolve trabalhos nessa direção, por meio de seu Observatório Nacional de Enfrentamento ao Discurso de Ódio e ao Neonazismo. A iniciativa prevê um diagnóstico nacional e propostas de políticas públicas ainda em 2026. A questão é saber se haverá disposição política para transformar alertas em ações continuadas.
O próprio bolsonarismo poderá enfrentar um debate cada vez mais rigoroso sobre os limites entre militância política e condutas antidemocráticas. Não se trata de criminalizar milhões de eleitores por suas escolhas, o que seria incompatível com a democracia. Trata-se de responsabilizar aqueles que praticarem atos de racismo, intimidação, perseguição ou violência, independentemente do partido ou da bandeira que carreguem.
A democracia protege o direito de discordar. Não concede licença para desumanizar.
É grave que, quase um século depois da ascensão do nazismo, ainda seja necessário explicar por que perseguir pessoas por sua origem, religião ou convicção política representa um perigo à convivência civilizada. Mais grave seria acreditar que esses episódios são apenas manifestações folclóricas de gente inconformada com a derrota eleitoral.
O ódio tem método. Identifica inimigos, organiza ressentimentos, distribui culpas e promete uma sociedade melhor depois que determinados grupos forem afastados. Precisa de plateia, de cúmplices e, sobretudo, da indiferença de quem prefere não se envolver. A História demonstra que o silêncio diante da intolerância pode custar muito mais caro do que enfrentá-la enquanto ainda é possível.
O mapa do ódio nunca está concluído. Sempre haverá um novo endereço, uma nova vítima, um novo grupo considerado inconveniente. Hoje, o comerciante. Amanhã, o trabalhador. Depois, o vizinho. Até que os perseguidos sejam tantos que já não reste ninguém suficientemente diferente para ser considerado seguro. O ódio não precisa de passaporte. Não respeita fronteiras. E, quando encontra portas abertas, pode acabar expulsando de casa até quem o convidou para entrar.