O grito e o mito

O 7 de Setembro é o grande símbolo, mas a formação do Brasil independente passou por Salvador, Parnaíba, Oeiras, Campo Maior e muitas outras geografias que a pintura não enquadrou.

O Brasil amanhece 7 de Setembro olhando para um riacho em São Paulo. Há 204 anos um jovem príncipe português tomou uma decisão que mudaria definitivamente a história do país. Só não aconteceu exatamente como está no quadro.

Em 7 de setembro de 1822, Pedro de Alcântara tinha 23 anos e ainda não era Dom Pedro I. Era príncipe regente do Brasil. Seria aclamado imperador somente em 12 de outubro e coroado em 1º de dezembro do mesmo ano.

Era uma tarde de sábado. Não estava saindo de palácio algum para proclamar a Independência. Voltava de Santos para São Paulo. Havia descido ao litoral em 5 de setembro, entre outros compromissos, para inspecionar fortificações e visitar familiares de José Bonifácio. No retorno, por volta das 16 horas do dia 7, sua comitiva alcançava a região próxima ao riacho do Ipiranga quando chegaram os mensageiros Paulo Bregaro e o major Antônio Ramos Cordeiro, trazendo correspondências urgentes do Rio de Janeiro. O correio carregava boa parte da Independência.

Cinco dias antes, em 2 de setembro de 1822, às 11 horas da manhã, Maria Leopoldina, que governava na ausência do marido, presidira no Paço da Boa Vista uma reunião do Conselho de Estado. Determinações recém-chegadas das Cortes portuguesas tornavam a situação praticamente insustentável. O Conselho decidiu recomendar a ruptura. Leopoldina e José Bonifácio de Andrada e Silva escreveram a Pedro. Os papéis viajaram depressa. A história corria a cavalo. Ou em mula?

A famosa tela “Independência ou Morte!”, de Pedro Américo, apresenta cavalos magníficos, uniformes impecáveis, espadas reluzentes e uma composição tão solene que quase se ouve uma orquestra. Foi concluída em 1888, 66 anos depois do acontecimento. Mais precisamente em Florença, Itália.

Relatos de integrantes da própria comitiva indicam que Pedro, o príncipe, montava uma besta, animal muito mais apropriado à travessia da Serra do Mar. Pedro, o pintor, sabia que estava “registrando” uma obra histórica, não produzindo uma fotografia. Fez seu trabalho magnificamente.

Pintura não é ata. Mas houve o Grito do Ipiranga? Tudo indica que houve uma proclamação, um brado, uma declaração pública de rompimento. O que não se pode fazer é tratar cada palavra transmitida posteriormente como se um repórter estivesse ao lado do príncipe com gravador ligado.

Duas testemunhas se tornaram fundamentais para a reconstrução do episódio. O padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que estava próximo de Pedro, e Manuel Marcondes de Oliveira e Melo, futuro Barão de Pindamonhangaba. Seus relatos registram a reação do príncipe às cartas, a proclamação da separação e a fórmula “Independência ou Morte”. Não precisamos assassinar o grito para corrigir o mito. Basta baixar um pouco o volume. A Independência do Brasil é muito maior do que aquela tarde.

Quando Pedro levantou a espada, ou simplesmente proclamou a ruptura, conforme a versão que se prefira, o país ainda estava longe de estar inteiramente independente. A Bahia é a prova mais eloquente. Lá, o sangue começou a correr antes mesmo do Ipiranga.

Em 20 de fevereiro de 1822, entre onze horas e meio-dia, morreu Joana Angélica de Jesus, abadessa do Convento da Lapa, em Salvador. O livro de óbitos registra que ela morreu atingida por uma baioneta durante a entrada das tropas lusitanas no convento. Tinha 60 anos, dois meses e nove dias. A precisão documental é importante porque durante muito tempo diferentes narrativas chegaram a deslocar o episódio para o dia anterior. O registro do convento não deixa dúvida. Foi no dia 20 de fevereiro. Era só o começo.

A resistência baiana ganhou força no Recôncavo. Cachoeira tornou-se centro fundamental da reação em junho de 1822. Tropas brasileiras foram sendo organizadas enquanto Salvador permanecia sob forte presença militar portuguesa, comandada por Inácio Luís Madeira de Melo.

Veio 8 de novembro de 1822. Na Batalha de Pirajá, brasileiros e portugueses travaram um dos confrontos decisivos da guerra. Do episódio, nasce uma das histórias mais saborosas do folclore militar. A do corneteiro Luís Lopes. Segundo a tradição, ele teria recebido ordem para tocar retirada e, por engano ou inspiração, tocou o avanço. Os portugueses, imaginando que os brasileiros haviam recebido reforços, teriam recuado. É ótimo. Só tem um pequeno inconveniente. Falta documento que prove. A Secretaria de Cultura da Bahia trata corretamente o episódio como narrativa envolta em dimensão lendária. História também é saber distinguir o que aconteceu do que gostaríamos muito que tivesse acontecido.

Mas a Bahia não precisa de lenda para ter heroísmo suficiente. Tem Maria Quitéria de Jesus. Quando quis se alistar, recebeu a negativa do pai. Resolveu o problema à sua maneira. Pegou roupas masculinas emprestadas, apresentou-se às tropas com o sobrenome do cunhado, Medeiros, e foi lutar. A identidade foi descoberta, mas já era tarde. O talento militar falava por ela. Maria Quitéria permaneceu.

Quitéria combateu nas campanhas da Independência e, terminada a guerra, seguiu para o Rio de Janeiro. Em 20 de agosto de 1823, Pedro I concedeu-lhe a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro e soldo de alferes. O documento sobrevive no Arquivo Nacional.

E tem Maria Felipa de Oliveira, mulher negra, marisqueira, liderança popular da Ilha de Itaparica. A história oferece outra lição importante sobre como construímos memória. Durante muito tempo, Maria Felipa sobreviveu principalmente pela tradição oral dos itaparicanos. Pesquisas posteriores reuniram relatos e documentação para reconstruir sua presença no movimento. É associada à organização da vigilância das praias, ao abastecimento da resistência e à mobilização de mulheres e homens na defesa de Itaparica.

 Tela "Independência ou Morte!", do pintor brasileiro Pedro Américo, no Museu do Ipiranga. Foto: Reprodução   

Há ainda o general francês Pedro Labatut, contratado para organizar as forças brasileiras. José Joaquim de Lima e Silva, que assumiu o comando na fase final. O almirante escocês Thomas Cochrane, importante na pressão naval. E o povo. Negros, indígenas, escravizados, libertos, lavradores, pescadores, mulheres e homens cujos nomes a documentação não conservou.

Na madrugada de 2 de julho de 1823, quase dez meses depois do Ipiranga, as forças portuguesas de Madeira de Melo deixaram Salvador pelo mar. As tropas brasileiras puderam entrar na cidade. A guerra que transformara a Bahia num dos grandes campos militares da Independência chegava ao seu desfecho. O 2 de Julho não diminui o 7 de Setembro. Completa-o.

O Governo da Bahia registra o episódio como a retirada das tropas de Madeira de Melo e a entrada das forças brasileiras sob o comando de Lima e Silva, destacando entre os personagens da luta Cochrane, Labatut, Maria Quitéria, Joana Angélica, Maria Felipa e representantes indígenas. A independência, que no quadro parece ter durado alguns segundos, levou meses para chegar a Salvador.

E o Piauí sabe perfeitamente como funciona. Em 19 de outubro de 1822, Parnaíba proclamou adesão à Independência. A reação portuguesa teve como principal personagem o militar João José da Cunha Fidié, veterano das guerras napoleônicas. O movimento espalhou-se. Em 24 de janeiro de 1823, Oeiras, então capital, aderiu à causa brasileira. Fidié, que tentava sufocar o levante na Vila de Parnaíba, marchou de volta à capital da província.

Só que no caminho estava Campo Maior. Em 13 de março de 1823, às margens do Jenipapo, brasileiros do Piauí, Ceará e Maranhão enfrentaram as tropas portuguesas. De um lado, soldados treinados, armamento e artilharia. Do outro, uma multidão improvisada onde havia vaqueiros e roceiros carregando espingardas de caça, facões, machados, foices, espetos, paus e pedras. Mas também havia milícias armadas e à cavalo.

A luta começou pela manhã. Houve centenas de mortos, feridos e prisioneiros brasileiros. Fidié venceu militarmente o confronto, mas saiu enfraquecido, desistiu de avançar sobre Oeiras e terminou refugiado em Caxias, no Maranhão, onde se renderia em 31 de julho de 1823. A Bahia tinha sido libertada apenas 29 dias antes.

Observe como muda a história quando ampliamos a moldura. Em 2 de setembro de 1822, Leopoldina presidiu o Conselho de Estado. Em 7 de setembro, Pedro proclamou a ruptura às margens do Ipiranga. Entramos na história em 19 de outubro, quando Parnaíba aderiu à Independência. Em 8 de novembro, travou-se a Batalha de Pirajá. Voltamos à linha do tempo em 24 de janeiro de 1823, quando Oeiras aderiu. Em seguida, 13 de março protagonizou a Batalha do Jenipapo. O 2 de julho encerra as escaramuças com as tropas portuguesas deixando Salvador. E 31 de julho conclui o processo com Fidié rendendo-se em Caxias.

 Descrição da tela "Independência ou Morte!", de Pedro Américo. Pintura histórica em formato horizontal, com uma grande cena ao ar livre. À esquerda, um grupo de homens montados a cavalo ergue espadas e chapéus em gesto de celebração e comando. Ao centro e à direita, dezenas de soldados a cavalo avançam pela estrada de terra, com uniformes claros, armas e bandeiras, formando uma composição movimentada e solene. No primeiro plano, trabalhadores rurais conduzem bois e observam a movimentação. Ao fundo aparecem uma casa simples, vegetação, colinas e um amplo céu azul com grandes nuvens. A obra representa de forma grandiosa e idealizada o episódio da Independência do Brasil às margens do Ipiranga. 

A liberdade chegou, mas com conta a pagar. Portugal só formalizou o reconhecimento do Brasil como império independente em 1825. O tratado foi firmado em 29 de agosto daquele ano. Havia ainda uma convenção financeira que envolveu o pagamento de dois milhões de libras esterlinas a Portugal.

A conta histórica é ainda maior. O Brasil que se libertava de Portugal continuava sendo um país escravista. Milhares de seres humanos continuavam propriedade de outros seres humanos. Povos indígenas continuavam submetidos à violência. Mulheres estavam fora da cidadania política. A Independência criou um Estado soberano antes de criar uma sociedade de iguais. A contradição não diminui 1822. Serve para compreendê-lo.

Independência é um processo que segue seu próprio protocolo. Tem conflito, negociação, disputa de território, memória. Às vezes é príncipe. Muitas vezes é povo. 

A cena que decoramos tem Pedro no centro. Quando abrimos o enquadramento, aparece Leopoldina governando e decidindo. Aparece José Bonifácio articulando, Joana Angélica caída diante do convento, Maria Quitéria vestindo farda, Maria Felipa organizando resistência em Itaparica. Aparecem os combatentes de Pirajá, Cochrane, Labatut e Lima e Silva.

Quando focamos no Piauí, aparecem Fidié, os líderes da adesão e centenas de homens anônimos atravessando o sertão para o Jenipapo. O quadro fica menos perfeito. A história, muito mais bonita.

Celebrar o 7 de Setembro não exige que repitamos uma lenda escolar. Pode ter havido espada, pode ter havido mula. Houve cartas, política, mulheres, negros, indígenas, ricos e pobres. Houve Bahia e Piauí. E houve muito sangue.

O Brasil não nasceu no grito. Foram muitas vozes. Pedro Américo nos deu uma imagem magnífica. A História faz algo ainda melhor. Abre a moldura e devolve o país inteiro.