O hóspede e a saia justa cabem na mesma frase quando Flávio Bolsonaro ganhou abrigo de Trump e acabou levando para Washington uma crise política na reta final das eleições americanas.
Donald Trump já tinha problemas mais que o suficiente para administrar. A popularidade despencando, os Democratas crescendo nas pesquisas, a economia incomodando os eleitores e uma eleição parlamentar batendo à porta. Aí desembarca em Miami um hóspede brasileiro que perdeu a eleição presidencial no Brasil.
O acolhimento na administração Trump acabou levando ao anfitrião uma dor de cabeça internacional. A hospitalidade virou assunto de Estado. Nos corredores de Washington, no Congresso e nas ruas há quem queira saber quem pagou a passagem.
A história com ingredientes de comédia política (leia aqui) está longe de ser brincadeira. O New York Times revelou que Jason Miller, ligado à Casa Branca, teria providenciado o avião particular utilizado na viagem. Flávio chegou aos Estados Unidos apesar de determinação judicial brasileira que restringia sua saída do país. Agora, 25 deputados Democratas exigem explicações do secretário de Estado, Marco Rubio.
As parlamentares Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus lideram a cobrança, acompanhadas por nomes como Pramila Jayapal e Joaquin Castro. Querem saber quem autorizou a entrada, quem participou da operação, se houve conhecimento das restrições judiciais e se recursos oficiais foram utilizados. Rubio tem até 13 de novembro para prestar os esclarecimentos solicitados.
Para completar o desconforto, as redes sociais fizeram o que sabem fazer com impressionante velocidade. A hashtag #DeportTheBolsonaros, ou Deportem os Bolsonaros, ganhou destaque entre os assuntos políticos no Brasil. Flávio e Eduardo entraram na repercussão digital, mexeram com a opinião dos eleitores americanos, que encontrou eco e guarida na oposição parlamentar.
Trump, conhecido por defender a política migratória rigorosa, passou a ser cobrado pelo tratamento concedido a um político estrangeiro. Parlamentares democratas questionam por que pessoas que fogem de guerras e perseguições enfrentam barreiras enquanto Flávio recebeu autorização especial para entrar no país. A comparação virou argumento político daqueles que não se resolvem com postagem indignada.
As eleições legislativas de 3 de novembro, aponta pesquisa Reuters/Ipsos de 26 de outubro, mostra Trump com apenas 32% de aprovação e 66% de desaprovação. Entre os eleitores registrados, os democratas apareciam com 47% das intenções de voto para o Congresso, contra 36% dos republicanos. Mas os números não são suficientes para explicar o ambiente de tensão.
O episódio Bolsonaro acrescenta mais controvérsia ao governo americano num cenário já conturbado. Numa eventual maioria democrata na Câmara, pode ampliar investigações, convocar autoridades e examinar documentos sobre o envolvimento da administração Trump no processo político brasileiro. Pramila Jayapal já anunciou a intenção, incluindo possíveis interferências da Meta nas eleições do Brasil. Tema que está na lista de pautas da Coluna Lugar de Fala para a próxima semana.
e agora?
Por enquanto, o hóspede recebeu uma autorização migratória temporária, conhecida como parole, com permanência prevista até outubro de 2027. Não é asilo político nem residência definitiva. A autorização pode ser revista. Um eventual pedido brasileiro de extradição teria de seguir os procedimentos legais americanos. Eduardo, por sua vez, dispõe de situação migratória diferente, com residência permanente.
Ninguém será deportado simplesmente porque uma hashtag ficou famosa ou porque os democratas conquistaram mais cadeiras no Congresso. A Justiça tem seus caminhos, inclusive quando a política prefere atalhos. Também não há comprovação de que dinheiro público americano tenha custeado a viagem.
O desconforto de Trump está menos na presença física de Flávio e mais nas perguntas que ela provoca. Até onde vai a proteção a aliados estrangeiros? Pode a máquina diplomática de uma potência interferir nos assuntos judiciais de outro país? E que explicações um presidente deve oferecer quando sua solidariedade política parece contrastar com o rigor que anuncia para outros imigrantes?
Há ainda uma complicação diplomática. Lula, reeleito pelos brasileiros, terá de conduzir relações com um governo americano que acolheu seu adversário derrotado. A diplomacia exige respeito entre Estados, independentemente das preferências pessoais de seus governantes.
Flávio imaginou encontrar nos Estados Unidos distância dos problemas brasileiros e descobriu que a política viaja sem passaporte e não respeita fronteiras.