No débito até hoje

Do calor extremo à falta d’água, a conta do excesso e das mudanças climáticas já chegou ao Piauí e não será paga apenas com boa-vontade e pequenas mudanças de hábito.

A falência ecológica e ilógica. No débito, a conta encerra hoje. No crédito, começa amanhã. Nesta quinta-feira, 30 de julho, também conhecida como amanhã, a humanidade terá consumido tudo o que a natureza consegue regenerar durante o ano inteiro. É o chamado Dia da Sobrecarga da Terra. De agosto a dezembro, viveremos ecologicamente no cheque especial. Retirando mais água, madeira, alimentos, energia e recursos do que o planeta consegue repor. Produzindo mais carbono do que florestas e oceanos conseguem absorver.

Nenhuma família administra a casa gastando continuamente mais do que recebe. Nenhuma empresa sobrevive consumindo o próprio patrimônio como se fosse renda. A humanidade, entretanto, age como se possuísse outro planeta guardado no almoxarifado.

A conta global chega ao Piauí em forma de calor mais intenso, umidade baixa, chuvas irregulares, secas prolongadas, incêndios, perda de lavouras, pressão sobre os reservatórios e riscos crescentes à saúde. O sertanejo, o agricultor familiar e as populações mais pobres são sempre os primeiros a pagar, embora sejam os que menos contribuíram para tamanho estrago.

Em 2026, há ainda o fortalecimento acelerado do El Niño. A Organização Meteorológica Mundial aponta alta probabilidade de continuidade do fenômeno e admite que ele possa alcançar intensidade forte. Para o Nordeste, os prognósticos indicam tendência de redução das chuvas e elevação das temperaturas entre julho e setembro. Já dá para notar a intensidade.

No Piauí, significa atenção redobrada. Água desperdiçada hoje pode faltar adiante. A queimada aparentemente pequena pode atravessar propriedades, destruir a Caatinga, atingir o Cerrado e deixar no ar uma fumaça que adoece crianças, idosos e trabalhadores. Árvore derrubada amplia o calor de uma rua inteira. Riacho transformado em depósito de lixo devolve o abandono na primeira chuva forte.

O cidadão pode fazer alguma coisa? Pode. Reduzir o desperdício de água e energia já é um bom começo. Evitar produtos descartáveis e compras desnecessárias. Reutilizar, separar resíduos e cobrar coleta seletiva. Não atear fogo em terrenos, roçados ou lixo. Plantar e proteger árvores adequadas ao clima local. Preferir alimentos produzidos mais perto, diminuindo transporte e emissões. Caminhar, pedalar ou compartilhar veículos quando possível.

Pode, sobretudo, cobrar. Saneamento, proteção das nascentes, arborização urbana, fiscalização do desmatamento, prevenção de incêndios, transporte público eficiente, energias limpas e políticas de adaptação climática. Não basta fechar a torneira enquanto governos permitem que rios sejam contaminados e florestas desapareçam.

A responsabilidade individual importa, mas não pode virar desculpa para esconder a responsabilidade das grandes empresas e do poder público. A mudança necessária é doméstica, econômica e política.

O planeta não manda boleto. Manda sinais em forma de calor, seca, enchente, fumaça, doença e escassez. Amanhã, a compra passa para o crédito. Mas o herdeiro da dívida já nasceu.