Meu primeiro voto foi em 1989. Trinta e sete anos depois, a mesma escolha atravessa minha história, acompanha a democracia brasileira e testemunha uma das mais extraordinárias trajetórias da política nacional.
Nasci na ditadura. Cresci num Brasil em que escolher o presidente da República não era um direito do cidadão. Vi a liberdade chegar aos poucos, não como presente dos generais, mas como conquista de uma sociedade que resistiu, enfrentou o medo e arrancou das mãos do autoritarismo o direito de decidir o próprio destino.
Em 1989, aos 20 anos, votei pela primeira vez para presidente. Meu candidato era Luiz Inácio Lula da Silva. Meu primeiro voto. Era também a primeira eleição presidencial direta depois de quase três décadas. O Brasil voltava às urnas. Eu entrava pela porta da frente da democracia.
Lula perdeu. Perderia novamente em 1994 e 1998. Reconheceu os resultados, respeitou os vencedores e continuou fazendo política. Em 2002, venceu. Foi reeleito em 2006. Voltou à Presidência em 2022. Agora, conquista o quarto mandato. São quase quatro décadas de uma relação política construída entre vitórias, derrotas, esperanças, decepções, reconstruções e permanências.
Naquele Brasil que reaprendia a democracia, direita e esquerda se enfrentavam sem que a eliminação do adversário fosse apresentada como solução. Existiam embates duríssimos, injustiças e radicalismos. Mas também havia convivência institucional, respeito aos resultados e até admiração entre adversários. Discordar não significava necessariamente odiar.
Hoje, o país enfrenta uma realidade muito diferente. A radicalização alimentou um ambiente em que a intolerância pretende substituir o debate. Identifico como um projeto de neofascismo, que encontrou espaço na política brasileira e ameaça transformar o pluralismo numa guerra interminável. Há uma diferença monumental entre combater ideias e perseguir pessoas.
Democracia não exige unanimidade. Exige civilidade.
A campanha eleitoral de 2026 expôs a gravidade. Nas redes sociais, denúncias sobre restrições à circulação de conteúdos políticos levantaram questionamentos sobre a transparência das plataformas digitais e a igualdade de condições entre os candidatos. As acusações de favorecimento deliberado continuam exigindo provas, investigação e respostas.
Hoje, no dia da votação, dificuldades de transporte coletivo e problemas provocados pelas condições meteorológicas levaram as duas candidaturas a pedir a ampliação do horário de votação. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, acolheu a solicitação de prorrogação nacional até as 19 horas. A determinação foi encaminhada ao Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Kássio Nunes Marques, que orientou seu cumprimento nas seções ainda abertas. Tudo compõe o retrato de uma eleição extraordinariamente tensa. E que ainda vai repercutir nos tribunais.
O Brasil testemunhou outra novidade. A dimensão alcançada pela mobilização popular nas plataformas digitais. Artistas, influenciadores, movimentos sociais e milhões de cidadãos passaram a ocupar as redes com intensidade inédita. A comunicação política ganhou novos protagonistas, modificou estratégias e levou a disputa a territórios em que a participação popular também depende de algoritmos.
A campanha deixou de ser apenas uma disputa entre candidatos e estruturas partidárias. Tornou-se um vasto confronto de narrativas, emoções, identidades e projetos de país. E as urnas deram sua resposta.
quarto mandato
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República, derrotando Flávio Bolsonaro no segundo turno de 25 de outubro de 2026. Vitória marcada por uma reviravolta inédita. Pela primeira vez desde a redemocratização, o candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu vencer a eleição presidencial e abre um capítulo que merece ser compreendido para além da contabilidade das urnas.
A vitória de Lula também representa a longevidade de uma liderança que atravessou diferentes gerações, enfrentou transformações profundas na sociedade brasileira e permaneceu no centro da vida política nacional. Não se trata de santificar ninguém. Lula tem erros, acertos, responsabilidades e contradições. Como qualquer governante, deve ser cobrado, criticado e submetido ao rigor das instituições. A democracia não precisa de homens infalíveis. Precisa de cidadãos livres.
A vitória de um candidato não transforma seus adversários em inimigos da nação. O direito de discordar continua inteiro. A liberdade dos derrotados vale tanto quanto a dos vencedores. É a diferença que separa democracia de autoritarismo.
voto atravessou o tempo
Quando olho para o rapaz de 20 anos que entrou numa seção eleitoral em 1989, vejo alguém que carregava a esperança de uma geração. Trinta e sete anos depois, envelheço. Meu país mudou. O mundo virou outro. A política ganhou novas linguagens, a comunicação passou por revoluções e as urnas testemunharam incontáveis mudanças. O primeiro voto permanece como uma das lembranças mais significativas da minha vida. A liberdade de escolher é maior que qualquer candidato.
Celebro a quarta eleição de Lula com a memória de quem conheceu um Brasil sem eleições presidenciais diretas. De quem acompanhou a redemocratização, viu a Constituição de 1988 nascer e aprendeu que nenhum direito está definitivamente protegido do retrocesso. As três derrotas de Lula não desapareceram. São parte indispensável da história de suas quatro vitórias. A democracia lhe permitiu perder, voltar, disputar e vencer.
Aos 57 anos, posso olhar para minha estreia eleitoral e reconhecer a continuidade como convicção. Princípios precisam sobreviver aos homens. A vida me ensinou que vencer uma eleição é importante. Preservar o direito de continuar realizando eleições livres é incomparavelmente maior. Nasci quando o povo não podia votar para presidente. Cresci lutando pelo direito de escolher. Envelheci exercendo esse direito. E agora testemunho o homem do meu primeiro voto conquistar sua quarta eleição presidencial.
Lula é tetra!
E se há algo que desejo ver pentacampeão, hexacampeão, eternamente campeão, é o direito de cada brasileiro escolher livremente seus governantes. Governos e Presidentes passam. Até os grandes líderes passam. A democracia, precisa vencer todos os dias.