O porão subiu à superfície. Agora o Box 43 deixa de ser problema escondido da Central de Artesanato e passa a ser patrimônio sob tutela federal. A memória tem proteção. Os guardiões têm voz. A reforma precisa respeitar a história, que cansa de ser empurrada ao escuro. Há uma fresta. Uma luz no fim do túnel.
A fresta é um alçapão. Pequeno, discreto, quase clandestino dentro da rotina da Central de Artesanato Mestre Dezinho. Por ele se desce ao porão. De uns tempos para cá, o porão que começou a subir. Seja pela memória dos visitantes, seja pela insistência de Mestre Carlos Oliveira e Dona Concita. Subiu pela pesquisa dos historiadores, pela arqueologia e pela indignação pública. Agora com a força institucional de um órgão federal criado para preservar.
A entrada do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional muda tudo. O que antes podia ser tratado, com descaso ou conveniência, como disputa interna de box, problema administrativo, ruído de reforma ou incômodo de corredor, agora passa a outro patamar. O Box 43 reconhecido como sítio arqueológico fez a conversa mudar de andar. E de jurisdição. Não se trata mais apenas de Central de Artesanato. Trata-se de patrimônio cultural brasileiro. É memória federalizada. É quando a marreta perde autoridade.
A Central de Artesanato Mestre Dezinho é um dos prédios mais simbólicos do centro de Teresina. Mas não nasceu para vender arte. Carrega camadas. Antes de ser Central, foi espaço ligado aos ofícios. Depois, tornou-se quartel. Atravessou o período da Ditadura Militar associado à repressão política. Mais tarde, virou casa do artesanato, da arte santeira, da madeira, do barro, da palha, do couro, da renda, da música, da dança e da comida que dão forma ao Piauí. O prédio já ensinou a fazer, serviu ao mando, guardou medo e depois acolheu criação.
A contradição torna-o tão importante. A Central é arquivo urbano. Documento de pedra, cal, madeira e silêncio. Lugar onde o Piauí pode ler a si mesmo, desde que tenha coragem de não arrancar as páginas mais difíceis.
No subsolo, no chamado Porão da Ditadura, durante anos, Mestre Carlos Oliveira e Dona Concita mantiveram o espaço vivo. Mantiveram como memória teimosa. Receberam estudantes, pesquisadores, curiosos, militantes, jornalistas, artistas e gente comum que queria entender o que havia debaixo daquele chão.
Enquanto a burocracia olhava de lado, eles apontavam. O poder público parecia preferir o esquecimento confortável, mas eles insistiram no desconforto necessário da lembrança. Mestre Carlos e Dona Concita são mais que ocupantes do espaço. São guardiões de uma memória incômoda e necessária. Memória confortável todo governo gosta de inaugurar.
O caso ganhou densidade quando, recentemente, pesquisadores da UFPI identificaram evidências arqueológicas no porão. A ciência entrou onde antes havia apenas relato, visita e memória oral. Localizaram marcas, vestígios, manchas orgânicas, sinais que exigem cuidado, perícia e preservação. Nada autoriza espetáculo. Tudo exige prudência.
Em patrimônio, prudência é responsabilidade. Nesse contexto, historiadores e arqueólogos procuraram o IPHAN para pedir a paralisação de qualquer obra no entorno. A preocupação é evidente. A reforma feita sem proteção nem planejamento técnico pode destruir o que ainda precisa ser estudado. Pode alterar parede, piso, acesso, camada, sedimento, vestígio, marca e ambiência. Pode apagar, em poucas horas de obra o que décadas de silêncio ainda não conseguiram destruir.
Obra passa. Patrimônio fica. Ou deveria ficar. A entrada do IPHAN é um divisor de águas. A partir de agora, a Central não pode mais ser tratada apenas como canteiro de obra. O Box 43 não pode mais ser tratado como obstáculo. O porão não pode mais ser entendido como detalhe. A memória não pode mais ser empurrada com a barriga, como vinha acontecendo no processo que corre a passos de quelônio no Ministério Público do Piauí.
Com a federalização do caso, a expectativa é outra. O MPPI precisa acelerar. A apuração precisa andar. Os documentos precisam aparecer. As responsabilidades precisam ser definidas. A obra precisa ser reavaliada. A Secult precisa se posicionar com clareza. A sociedade precisa saber quem autorizou o quê, com base em quais pareceres, sob quais alertas e diante de quais riscos.
A demora também produz dano e pode ser cúmplice do apagamento. É estranho perceber a resistência silenciosa que cerca o tema. Parece haver uma força subterrânea tentando impedir a preservação completa da história. Não é força de peito aberto, com rosto, assumido e transparente. Mas uma combinação de omissão, lentidão, desconversa, pressão administrativa, silêncio institucional e obra andando onde deveria haver pausa.
Alguns setores preferem a memória domesticada. Um memorial bonito, limpinho, sem conflito, sem poeira, sem vestígio, sem denúncia, sem guardiões e sem pergunta difícil. Instagramável. Só para fotografar. Memória de inauguração, não de investigação. Se não incomoda, nasceu para enfeite. Porão da Ditadura não é adorno.
A Secult deveria ser trincheira de proteção. Secretaria de Cultura não existe apenas para promover evento, montar palco, contratar atração, cortar fita e fazer agenda positiva. Cultura também é defesa do patrimônio, escuta e cuidado. É parar obra quando ameaça o bem histórico. É compreender que modernização sem memória é só maquiagem sobre ruína.
Se havia reforma em andamento e risco ao Box 43, a primeira atitude deveria ser a cautela. Não a pressa. Não o silêncio. Não a tentativa de tratar o caso como incômodo menor. O dever público é preservar antes de intervir. Investigar antes de mexer. Escutar antes de decidir. Proteger antes de reformar.
A revitalização da Central é necessária. Ninguém discute isso. O prédio precisa de cuidado. Os artesãos precisam de estrutura. O público precisa de acessibilidade. Os espaços culturais precisam funcionar melhor. Mas modernizar não é apagar. Reformar não é desfigurar. Valorizar não é arrancar a alma do lugar para depois pendurar uma placa dizendo que ali havia alma.
Há também uma chance real de reaver o palco destruído, que serviu e registrou a história contemporânea da música nos últimos 40 anos. Ponto fundamental. Palco não é detalhe em uma Central de Artesanato. É lugar de voz, corpo, dança, música, teatro, poesia, reunião, denúncia, celebração e pertencimento. É onde a cultura deixa de ser produto e volta a ser presença.
Destruir um palco, um equipamento cultural, é mais do que uma intervenção física. É um gesto simbólico. É retirar do espaço o que convoca gente, encontro e expressão. Não se destrói palcos. Ao contrário. Devem ser reformados e ganhar atualização de engenharia e tecnologia.
Palco destruído sem o devido cuidado com o patrimônio deve ser apurado com rigor. Se pode ser refeito, que se refaça. Se a reforma errou e se houve dano, que se corrija e que haja responsabilização.
A entrada do IPHAN devolve ao prédio não apenas o porão protegido, mas a lógica cultural inteira. Preservar não é congelar. É permitir que o lugar continue vivo sem perder a verdade do que foi. A Central precisa de futuro, sim. Mas não há futuro digno quando se passa por cima do passado com a roda da máquina.
O Box 43 é pequeno demais para tanta negligência e grande demais para ser tratado como estorvo. É uma espécie de coração subterrâneo da Central. Ali, o prédio respira por baixo. Lá a história ainda pulsa em silêncio. Mestre Carlos e Dona Concita fizeram o belíssimo trabalho de guardar a memória que deveria ter sido feito pelo Estado desde o primeiro alerta.
Não adianta fingir surpresa. O mundo da cultura, os pesquisadores, os visitantes, os artesãos e os movimentos de memória sabem. A cidade toda sabe. E, se antes faltava uma chancela mais forte, agora o IPHAN entrou no jogo para dizer que patrimônio não se decide no improviso.
A história do prédio ajuda a entender a gravidade do momento. A Central reúne no mesmo corpo a Teresina dos ofícios, o Piauí do quartel, a dor da repressão, a resistência democrática, a arte popular e a economia criativa. É raro um edifício carregar tanta coisa junta ao mesmo tempo. Mais raro ainda é encontrar, dentro dele, um porão que concentra a pergunta moral de uma geração inteira. O que fazemos com as marcas da violência quando elas atrapalham a paisagem oficial? Soterrar? Maquiar? Transformar em atração protocolar? Ou podemos preservar com coragem? A escolha está colocada.
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Ao assumir a tutela patrimonial do caso, o IPHAN pode ajudar o MPPI a sair da marcha lenta. A Secult precisa colaborar, não dificultar. A obra precisa respeitar a arqueologia. O palco precisa ser revisto. O Box 43 precisa ser protegido. Mestre Carlos e Dona Concita precisam ser reconhecidos e premiados nacionalmente. O Porão da Ditadura precisa ser tratado como lugar de memória, investigação, dor, resistência e verdade.
Não se constrói Memorial da Resistência atropelando a resistência da memória. Não se revitaliza um prédio histórico apagando suas cicatrizes. E nem se honra a democracia tratando o passado como entulho. O porão já está na superfície e, desta vez, não pode mais ser empurrado e sufocado no escuro.
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O edifício da Central de Artesanato Mestre Dezinho, inaugurado no início do século passado, funcionou como Quartel da Polícia Militar até 1978. Desde 1980, o Box 43 traz como missão a preservação do porão guardado por Carlos Oliveira e Maria da Conceição. Em abril deste ano, a UFPI noticiou evidências arqueológicas no Porão da Ditadura. Logo em seguida, o CAU/PI – Conselho de Arquitetura e Urbanismo, registrou reunião em maio último sobre salvaguarda do espaço.
Agora o IPHAN informa que o espaço está registrado como sítio arqueológico. Atualmente, intervenções com risco a vestígios são protegidos por legislação federal, especialmente a Lei nº 3.924/1961. A vitória também pode ser contabilizada ao Grupo Cada Louco É Um Exército, comandado pelo ativista cultural, cantor, compositor e jornalista, Zé Marques. É um dos principais articuladores do movimento de preservação e revitalização dos prédios e da alma do Centro da capital piauiense. Outras pessoas também vêm colaborando explicita e veladamente para o resultado positivo.
A memória venceu e a Democracia também se mede pela coragem de preservar os lugares onde ela foi ferida.