Fora da curva

O talento não precisa de pedestal nem de rótulo, mas precisa de ambiente, estímulo, liberdade e de uma sociedade menos apaixonada pela média e mais preparada para o que transborda.

Muitas pessoas passam a vida inteira tentando diminuir o próprio tamanho para caber nos lugares. Não estou falando de dieta. Nem de elevador lotado.

Falo de inteligência, curiosidade, sensibilidade, criatividade, velocidade de pensamento. Gente cuja cabeça pega atalhos, abre quinze abas ao mesmo tempo e, enquanto alguém ainda explica o problema, já está discutindo com a solução.

Hoje, 27 de agosto, São Paulo celebra oficialmente o Dia Municipal das Pessoas com Altas Habilidades ou Superdotação, instituído em 2013. A data não é nacional. Ainda. Mas oferece uma bela oportunidade para falar de um assunto que o Brasil, finalmente, começa a enxergar melhor.

Em junho deste ano, entrou em vigor a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, acompanhada da criação de um cadastro nacional. Mudança super importante. Reconhece, identifica e oferece atendimento educacional adequado a estudantes cujo potencial, durante muito tempo, foi tratado quase como um detalhe administrativo.

Somos um país apaixonado por talentos, desde que eles já venham prontos. Aplaudimos o músico extraordinário, o cientista brilhante, o escritor genial, o inventor, o menino que passou numa universidade muito cedo. O que ainda não percebemos é a criança que estava lá antes do aplauso chegar.

Às vezes ela está no fundo da sala, entediada, tímida. Outras vezes fala demais, pergunta demais. Muitas vezes termina a tarefa antes dos outros e ganha, como prêmio pela eficiência, mais tarefa. A lógica do imposto de renda da inteligência é produziu mais, paga mais.

Altas habilidades ou superdotação não significam saber tudo, tirar dez em tudo, tocar piano aos quatro anos ou resolver equações enquanto prepara o café da família. Muito menos significam uma vida automaticamente fácil. Potencial elevado não vem acompanhado de manual de instruções.

Uma pessoa pode demonstrar enorme capacidade numa área e absoluta normalidade em outra. Pode aprender com velocidade impressionante e ter dificuldades para lidar com rotinas aparentemente simples. Pode apresentar criatividade fora da curva e desempenho escolar apenas razoável. Pode ser brilhante e desorganizada. Extraordinária e insegura. Muito capaz e profundamente humana.

O superdotado continua sendo gente. Parece óbvio. Mas é preciso registrar.

Outro equívoco é imaginar que as pessoas não precisam de atenção porque “já estão na vantagem”. Talento não cultivado também se perde. Uma árvore que cresce mais rápido não dispensa água. Talvez precise justamente de espaço.

É aí que a escola desempenha papel decisivo. Educação inclusiva não consiste apenas em ajudar quem encontra dificuldades para alcançar determinado ponto. Consiste também em perceber quem pode avançar além dele. Equidade é não obrigar todo mundo a usar o mesmo número de sapato apenas porque compramos uma caixa inteira em promoção.

Há casos mais complexos de pessoas com altas habilidades apresentar simultaneamente outras condições do neurodesenvolvimento ou dificuldades específicas. Fenômeno conhecido como dupla excepcionalidade, expressamente contemplado pela nova política nacional.

É aí que muitos passam despercebidos. Uma característica pode esconder a outra. A dificuldade encobre o talento, que mascara a dificuldade. O sujeito atravessa infância, adolescência e, às vezes, boa parte da vida adulta tentando descobrir por que pensa daquele jeito, sente daquela forma ou nunca parece caber inteiramente nos ambientes onde está.

Falar de altas habilidades é menos sobre superioridade e mais sobre diversidade humana.

Ninguém é melhor porque pensa mais rápido. Nem menor porque precisa de mais tempo. A humanidade é interessante justamente porque não saiu de uma linha de montagem. Tem cérebro que caminha. Tem cérebro que corre. Tem cérebro que dança. E tem uns que estão sempre adiante.

O desafio da sociedade inteligente não é transformar as diferenças em ranking. É permitir que cada pessoa desenvolva o que tem de melhor sem precisar pedir desculpas por ser diferente.

Durante muito tempo, perguntamos às crianças se conseguiam acompanhar a turma. Chegou a hora de inverter a pergunta. A turma consegue acompanhar aquela criança diferenciada? Não para separá-la. Para encontrá-la.

Reconhecer altas habilidades não é fabricar gênios, distribuir medalhas ou alimentar vaidades. É impedir desperdícios, oferecer estímulo, compreender, abrir espaço e, principalmente, retirar de muita gente a obrigação cansativa de passar a vida inteira fingindo ser um pouco menos para incomodar um pouco menos.

O mundo já tem gente demais tentando caber. Talvez esteja precisando dos que transbordam.