Enquanto houver artista

No Dia do Artista, o calendário reúne a memória de João Caetano e os aniversários de Borges e Leminski para lembrar que criar também é uma forma de sustentar o mundo.

O mundo não vem pronto. Quem acredita em coincidências? Só se fossem organizadas por um poeta. Ou dois. Talvez.

No Brasil, 24 de agosto é o Dia do Artista. E foi também em 24 de agosto que nasceram dois dos escritores mais extraordinários da literatura moderna. Jorge Luis Borges, em Buenos Aires, em 1899, e Paulo Leminski, em Curitiba, em 1944. Exatamente 45 anos separam os dois nascimentos.

Mas a história do dia começa bem antes deles. E começa no teatro. Matéria-prima da Coluna Lugar de Fala. A origem da celebração brasileira está ligada a João Caetano dos Santos, um dos grandes pioneiros da profissionalização da cena nacional. Ator, empresário e diretor, João Caetano criou sua própria companhia ainda no século XIX e ajudou a construir uma ideia de teatro brasileiro num tempo em que nossos palcos permaneciam fortemente dependentes das companhias e referências europeias. Morreu no Rio de Janeiro em 24 de agosto de 1863, aos 55 anos.

Décadas depois, a memória de João Caetano encontraria outra história. Em agosto de 1918, artistas se organizaram no Rio de Janeiro para criar a Casa dos Artistas, instituição concebida para defender e amparar profissionais da cena. A entidade foi fundada inicialmente em 13 de agosto, no Teatro Trianon, por 68 profissionais. Dias depois, 133 artistas participaram da escolha de sua direção. Em homenagem a João Caetano, porém, 24 de agosto foi adotado como data oficial da fundação. A partir dali, o aniversário da morte do ator também passou a ser celebrado como Dia do Artista.

Não é detalhe. A data que hoje usamos para festejar a criação artística tem na origem uma história de organização, solidariedade e sobrevivência. Diz muito. Artista nunca viveu só de aplauso. Em 1933, quinze anos depois da criação da Casa dos Artistas, o jornal O Radical já registrava que o Dia do Artista era comemorado nos teatros do Rio de Janeiro. A reportagem aproximava os dois acontecimentos. A morte de João Caetano, em 1863, e a criação da Casa dos Artistas, em 1918.

Mais de um século depois, a questão permanece estranhamente atual. Reconhecemos a beleza da arte com enorme facilidade. Reconhecer o trabalho do artista continua sendo mais difícil. Gostamos da música, do filme, do livro, da fotografia, do espetáculo, da pintura. Nem sempre nos lembramos de que atrás de cada obra existem estudo, técnica, tempo, disciplina, investimento, trabalho e vida.

O artista não é um adereço colocado sobre a sociedade depois que todas as coisas importantes estão resolvidas. O artista é uma das pessoas que ajudam a sociedade a descobrir o que é importante.

O calendário tão generoso de hoje ao colocar Borges e Leminski justamente aqui. Onde são reverenciados com vates. Dois escritores profundamente diferentes. Dois gigantes.

Borges parecia aumentar o universo cada vez que escrevia. Bibliotecas, espelhos, labirintos, memória, eternidade, sonho, duplos, tempo. Entramos num conto de Borges e rapidamente deixamos de saber onde termina a história e começa a filosofia.

Em seu poema “Arte poética”, ele encontra uma imagem quase perfeita para o que a criação faz conosco.

“el arte debe ser como ese espejo / que nos revela nuestra propia cara.”

A arte deve ser como um espelho capaz de revelar o nosso próprio rosto.

Está tudo ali. Não um espelho para conferir a aparência, mas para descobrir quem somos.

Borges nasceu em 24 de agosto de 1899 e atravessou poesia, conto e ensaio até se tornar uma das vozes mais influentes da literatura do século XX. Quarenta e cinco anos depois, no mesmo 24 de agosto, nasceu Paulo Leminski. Se Borges construía labirintos, Leminski parecia descobrir atalhos. Não atalhos para fugir da complexidade. Para chegar mais depressa ao centro dela.

Erudito e pop, rigoroso e brincalhão, poeta, romancista, tradutor, compositor e publicitário, Leminski conseguiu algo raríssimo. Aproximar experimentação e comunicação. Estudou línguas, mergulhou na cultura japonesa, dialogou com o concretismo, com a música popular e com a publicidade sem permitir que nenhuma das linguagens aprisionasse a outra.

Poucos versos demonstram tão bem essa capacidade quanto os de “Incenso fosse música”.

“isso de querer / ser exatamente aquilo / que a gente é”

E o poema segue apontando para a possibilidade de isso nos levar além. É muito Leminski. Poucas palavras. Um território enorme.

Borges podia colocar o infinito dentro de uma biblioteca. Leminski podia colocar uma biblioteca dentro de cinco versos. E os dois demonstraram, cada um à sua maneira, que profundidade não precisa ser sinônimo de peso.

A inteligência pode brincar. A filosofia pode cantar. Uma pergunta enorme pode caber numa frase pequena. Uma das maiores forças da arte está em modificar as dimensões das coisas.

Uma canção consegue colocar uma vida inteira dentro de três minutos. Uma fotografia segura um instante que desapareceria. O teatro constrói uma existência durante duas horas e depois a desmonta diante dos nossos olhos. Uma pintura interrompe o tempo. Um livro permite carregar séculos dentro da mochila. Um poema pode precisar de cinco linhas para permanecer cinquenta anos dentro de alguém. Nada disso é supérfluo.

O Dia do Artista tem enorme poder simbólico. Nasceu ligado à memória de João Caetano, um homem que ajudou a profissionalizar o teatro brasileiro, e à Casa dos Artistas, criada para que aqueles que passavam a vida emocionando os outros também encontrassem proteção quando precisassem.

Antes de ser homenagem, a data já era reivindicação silenciosa. Lembrando que artista também é trabalhador. Parece óbvio. Nunca foi completamente. Ainda hoje há quem adore arte, mas estranhe quando o artista cobra por ela. Quem considera cultura indispensável para uma cidade, mas facilmente dispensável no orçamento. Quem aplaude o resultado e esquece o trabalho que tornou aquele resultado possível.

O 24 de agosto merece ir além do protocolo. Muito mais que o dia de dizer parabéns. É dia de reconhecer quem escreve quando seria mais fácil repetir. Quem sobe ao palco sem garantia alguma de aplauso. Quem pinta, dança, toca, canta, representa, fotografa, filma, esculpe, inventa. Quem passa a existência inteira tentando acrescentar ao mundo alguma coisa que ainda não estava nele. Borges fez isso. Leminski fez isso. João Caetano fez isso. Milhares de artistas anônimos continuam fazendo.

Os dois aniversariantes deste 24 de agosto deixaram, sem combinar, duas belas pistas para entender tudo isso. Com Borges, descobrimos a arte como espelho. Com Leminski, descobrimos que ser plenamente aquilo que somos pode nos levar além. As duas ideias se encontram porque artista olha para o que existe, enxerga o que ninguém havia percebido e devolve alguma coisa diferente.

O mundo não vem pronto. Ainda bem. Enquanto houver artista, sempre haverá alguém trabalhando na parte que falta.