Donald Trump foi dormir presidente dos Estados Unidos e acordou com uma tremenda enxaqueca. O Congresso mudou de mãos, o mapa eleitoral ganhou novas cores e algumas fortalezas republicanas descobriram que os muros mais altos podem cair diante das urnas.
Ontem, terça-feira, 3 de novembro, entrou para a história do continente americano. A impressionante onda azul atravessou o país, levou os democratas ao controle da Câmara e do Senado, conquistou governos estaduais e produziu vitórias que, até pouco tempo, pareciam capítulos reservados a um futuro distante.
Há motivos de sobra para comemorar para quem acredita na democracia como instrumento de transformação, na diversidade como riqueza humana e no direito de todos participarem das decisões que determinam o destino de uma nação.
A festa democrática também foi histórica, política e humana.
Nos Estados Unidos, as eleições obedecem a um calendário diferente do brasileiro. A Presidência é disputada a cada quatro anos. A Câmara dos Representantes, com 435 cadeiras, é inteiramente renovada a cada dois. O Senado, com 100 integrantes, renova aproximadamente um terço de suas cadeiras a cada eleição. Os estados também elegem seus governadores conforme calendários próprios.
Foi uma eleição de meio de mandato, conhecida como midterm election. Trump não concorria, mas pediu aos americanos que votassem como se o nome dele estivesse na urna. Os eleitores atenderam ao pedido de uma maneira que provavelmente não constava do planejamento presidencial.
números extraordinários
Os democratas retomaram o controle das duas casas legislativas. Levantamento recente apontava 54 integrantes no bloco democrata do Senado, incluindo independentes alinhados ao partido. Na Câmara, a apuração parcial registrava 228 cadeiras democratas, diante de 139 republicanas, enquanto outras 68 disputas ainda aguardavam definição.
Foram pelo menos sete cadeiras republicanas conquistadas no Senado e mais de duas dezenas de distritos virados na Câmara. A maioria legislativa está assegurada, embora a dimensão definitiva da vitória ainda dependa da conclusão da contagem.
No Texas, James Talarico conseguiu uma vitória que os democratas não alcançavam no Senado desde 1988. No Kansas, Adam Hamilton rompeu uma sequência republicana que atravessava gerações. Em Iowa, Josh Turek conquistou outra cadeira. Ohio, Maine, Carolina do Norte e Carolina do Sul também participaram da mudança.
É uma transformação que merece ser observada com atenção. Não estamos falando apenas de uma vitória nos tradicionais redutos democratas, mas de eleitores que promoveram mudanças em territórios onde o Partido Republicano parecia ter instalado residência permanente. Quando a mudança acontece também nas fortalezas adversárias, a mensagem política adquire outra dimensão.
Nos governos estaduais, movimento foi igualmente expressivo. Das 36 eleições realizadas, os democratas conquistaram pelo menos quatro governos anteriormente republicanos, Texas, Geórgia, Ohio e Iowa. Wisconsin permaneceu sob comando democrata, mas escreveu página inédita de sua história.
Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms, de 56 anos, tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora de um estado americano. Advogada, ex-prefeita de Atlanta e ex-integrante do governo Joe Biden, construiu a trajetória na administração pública e na representação política da comunidade negra. Venceu o empresário republicano Rick Jackson e encerrou mais de duas décadas de domínio republicano no governo estadual. Keisha atravessou uma barreira que resistiu por quase dois séculos e meio da história dos EUA.
No Novo México, Deb Haaland, de 65 anos, integrante do povo indígena Laguna Pueblo, tornou-se a primeira mulher indígena eleita governadora dos Estados Unidos. Mãe solo, conheceu dificuldades financeiras, recorreu a programas de assistência social, estudou Direito e construiu trajetória política extraordinária.
Foi uma das primeiras indígenas eleitas para a Câmara federal e a primeira pessoa indígena a ocupar um ministério americano, como secretária do Interior de Joe Biden. Agora governará um estado. Há poesia histórica na vitória. Os povos que resistiram à colonização passam a ocupar, por meio de uma de suas filhas, um dos mais importantes espaços de decisão do país. Os povos originários de volta ao poder de suas terras.
No Texas, Gina Hinojosa protagonizou uma das maiores surpresas eleitorais. Advogada, filha de família com raízes mexicanas, ex-dirigente escolar e deputada estadual, derrotou Greg Abbott, um dos governadores republicanos de maior projeção nacional. Tornou-se a primeira mulher latina eleita para governar o Texas, encerrando aproximadamente três décadas de domínio republicano.
Sua campanha valorizou a escola pública, debateu o custo de vida e as necessidades das famílias. Num estado em que a imigração ocupa o centro do debate conservador, a mulher de ascendência mexicana conquistou o governo. A história, quando é irônica, também é caprichosa.
Em Ohio, Amy Acton acrescentou outro capítulo dourado. Ou melhor, azul. Médica, ex-diretora de Saúde Pública e figura conhecida por sua atuação durante a pandemia, derrotou o republicano Vivek Ramaswamy e tornou-se a primeira mulher eleita governadora do estado. Sua trajetória reforça a presença de profissionais da saúde na política e mostra como questões concretas do cotidiano podem ocupar o centro das escolhas eleitorais.
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Em Wisconsin, David Crowley, de 40 anos, tornou-se o primeiro governador negro da história estadual. Nascido em Milwaukee, viveu dificuldades econômicas e instabilidade habitacional antes de se tornar organizador comunitário, deputado e administrador do condado de Milwaukee. Derrotou Tom Tiffany, aliado de Trump, e manteve o governo estadual nas mãos dos democratas.
Na Califórnia, Xavier Becerra, de 68 anos, filho de família trabalhadora de origem mexicana, tornou-se o primeiro latino eleito diretamente governador do estado. Advogado, ex-deputado federal, ex-procurador-geral da Califórnia e ex-secretário de Saúde dos Estados Unidos, reúne décadas de experiência. A Califórnia não tinha governador latino desde 1875, quando Romualdo Pacheco assumiu o cargo por sucessão. Foram mais de 150 anos de espera.
Em Maryland, Wes Moore, primeiro governador negro do estado, conquistou a reeleição. Ex-militar, escritor e dirigente de organização social, segue ampliando sua presença na política nacional americana. São vitórias pioneiras, marcantes, que têm importância que superam a identidade dos eleitos. São histórias de pessoas que chegam ao poder carregando experiências de comunidades durante muito tempo afastadas de seus centros de decisão.
O novo Congresso também terá rostos e trajetórias que desafiam antigas tradições. Peggy Flanagan, integrante do povo White Earth Ojibwe, foi eleita pelo Minnesota e será a primeira mulher indígena no Senado americano. Em Illinois, Juliana Stratton, vice-governadora negra, conquistou uma cadeira no Senado. Ao lado de Tammy Duckworth, fará do estado o primeiro representado simultaneamente por duas mulheres não brancas na Casa. Com Stratton, Lisa Blunt Rochester e Angela Alsobrooks, três mulheres negras passarão a exercer o mandato de senadoras ao mesmo tempo, outro acontecimento inédito.
Em Michigan, Abdul El-Sayed, médico e especialista em saúde pública, tornou-se o primeiro muçulmano eleito ao Senado. Em New Hampshire, Chris Pappas será o primeiro homem assumidamente gay a ocupar cadeira na Casa.
No Iowa, Josh Turek, bicampeão paralímpico de basquete em cadeira de rodas, chega ao Senado trazendo a experiência de atleta com deficiência. No Texas, James Talarico, ex-professor e estudante de teologia, representa outra trajetória. Na Carolina do Sul, a pediatra Annie Andrews rompeu uma longa sequência de vitórias republicanas.
Entre os novos parlamentares estão profissionais da medicina, professores, advogados, ex-gestores, ativistas comunitários, representantes de minorias e políticos experientes. Não formam um bloco ideologicamente uniforme. Há progressistas, moderados e diferentes concepções de governo. As histórias revelam mudanças importantes na representação política americana.
A diversidade não pertence exclusivamente a um partido. Na Flórida, o republicano Byron Donalds também fez história ao se tornar o primeiro governador negro do estado. A vitória demonstra que o avanço da representação racial pode ocorrer em campos políticos diferentes. O conjunto das vitórias democratas desta eleição reúne número expressivo de marcos inéditos. A eleição do pioneirismo.
e Trump?
Permanece presidente, com seus poderes constitucionais. Chegou a arremedar suposta fraude, mas reconheceu o resultado. Já adiantou que se tornará o Mister Veto. A sinalização prevê que vai viver às turras com os parlamentares nos próximos dois anos. Tantas guerras que semeou pelo mundo, agora vai viver batalhas duras dentro de casa. As bombas políticas vão cair sob a Casa Branca.
A derrota política encerra os tempos de maioria absoluta. Durante os dois primeiros anos do segundo mandato, contou com o controle republicano das duas casas do Congresso. A partir de janeiro, terá de conviver com maiorias democratas capazes de fiscalizar o governo, conduzir investigações, bloquear propostas legislativas e impor dificuldades à aprovação de nomeações e iniciativas presidenciais. Não é pouca coisa.
O Congresso americano possui instrumentos importantes de fiscalização do Executivo. O novo equilíbrio de forças pode transformar a segunda metade do mandato de Trump numa sucessão de negociações, confrontos e investigações. Se ele não conseguir negociar com a oposição, vai enfrentar dias muito difíceis.
Os motivos da mudança merecem atenção. Custo de vida, tarifas comerciais, a guerra com o Irã e o descontentamento com os rumos do governo apareceram entre as principais preocupações dos eleitores. Pesquisas de boca de urna identificaram forte insatisfação econômica e desejo de maior fiscalização sobre o presidente.
e o Brasil com S?
A vitória de Lula, em 25 de outubro, aconteceu apenas nove dias antes da eleição americana. É impossível desconectar a resistência política internacional ao conservadorismo de Trump e de seus aliados relacionada ao Brasil.
Há temas que atravessam as duas democracias, como a disputa nas redes sociais, a mobilização de movimentos culturais, as tensões em torno das instituições e a participação de grupos sociais historicamente excluídos.
e os Bolsonaro?
A situação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos ganhou dimensão política adicional. A deputada democrata Pramila Jayapal declarou, antes das eleições, que nova maioria parlamentar poderia investigar a proteção oferecida pelo governo Trump ao brasileiro e a possível influência da Meta no processo eleitoral do Brasil.
O resultado de ontem cria condições institucionais para que as iniciativas avancem, caso os novos dirigentes do Congresso decidam levá-las adiante.
Não significa que Flávio será automaticamente deportado, nem que o governo americano modificará imediatamente sua posição. Mas as perguntas que antes encontravam resistência no Congresso podem e vão ganhar novos caminhos. É o maior problema político para quem esperava encontrar nos Estados Unidos um abrigo sem questionamentos. A mudança de maioria parlamentar transforma o assunto em tema de fiscalização.
Não dá para afirmar que o episódio envolvendo Flávio influenciou votos americanos. Não existem evidências que permitam atribuir a ele participação mensurável na derrota republicana numa escala de influência definitiva. Mas o fortalecimento dos democratas muda as condições em que sua situação será discutida.
Para o Brasil, Câmara e Senado controlados pela oposição a Trump podem ampliar os questionamentos sobre tarifas comerciais, relações diplomáticas e eventuais interferências externas em assuntos internos brasileiros. Não existe garantia de mudanças automáticas, mas a correlação de forças já é outra.
O que aconteceu ontem merece ser observado para além das disputas entre líderes e partidos. Eleições são momentos em que sociedades revelam suas inquietações, corrigem rumos, preservam conquistas ou escolhem novos caminhos.
A vitória democrata produziu números expressivos. Mas nenhuma estatística consegue descrever inteiramente o significado de uma mulher negra chegar ao governo da Geórgia, de uma indígena conquistar o Novo México, de uma latina assumir o Texas ou de um homem negro tornar-se governador de Wisconsin.
Por trás dos resultados existem gerações de pessoas que lutaram, organizaram comunidades, enfrentaram discriminações e abriram caminhos que pareciam impossíveis. O mundo não mudou completamente numa única terça-feira. Os Estados Unidos continuam divididos, suas instituições permanecem submetidas a grandes tensões e os desafios econômicos e sociais não desapareceram com a contagem dos votos.
Algo importante aconteceu. Portas se abriram. Maiorias mudaram. Novas vozes chegaram a lugares onde quase ninguém parecido com elas teve oportunidade de falar. Quem celebra a democracia, a diversidade e a ampliação da participação popular tem razões para estar feliz.
Democracia é mais que o direito de escolher quem governa. É a possibilidade de transformar, pelo voto, o que parecia imutável. Ontem, a onda foi azul e trouxe muitas histórias que mereciam chegar à praia.