Diferente de quem?

Crianças e adultos passam anos tentando parecer normais, quando o verdadeiro problema está na sociedade que ainda oferece pouco espaço para quem funciona de maneira diferenciada.

E se a diferença não for defeito? Pergunta parece simples. Não é. Aprendemos a olhar para o que escapa ao padrão procurando alguma coisa para corrigir. Quem não aprende no ritmo esperado, quem não suporta determinados estímulos, quem se concentra demais ou de menos, quem pensa rápido demais, quem precisa se movimentar para organizar as ideias, quem interpreta o mundo de maneira literal, quem percebe detalhes que ninguém percebe, quem tem dificuldades extraordinárias ao lado de habilidades igualmente extraordinárias.

Quase sempre começamos pelo que falta. Está na hora de começar pelo que existe. Neste 10 de agosto, uma efeméride ajuda a provocar a conversa. Em 1922, educadores criaram nos Estados Unidos uma organização dedicada ao ensino das então chamadas “crianças excepcionais”. Um longo trajeto para os conceitos contemporâneos. Mais de cem anos se passaram. Mudaram as palavras, avançou a ciência, ampliaram-se os direitos e chegamos a um conceito muito mais interessante. Neurodiversidade.

O cérebro humano não é produzido em série. Autistas, pessoas com TDAH, dislexia, superdotação (hoje é o dia) altas habilidades e outras formas de neurodivergência não constituem um único grupo nem vivem experiências iguais. Há necessidades específicas, limitações reais, potencialidades diferentes e, em muitos casos, necessidade de suporte.

Reconhecer é importante. O equívoco se instala quando transformamos diferença em inferioridade e criamos uma espécie de manual invisível do cérebro considerado correto. Ele deve prestar atenção da forma correta, aprender na velocidade correta, controlar o corpo da maneira correta, conversar olhando da maneira correta, responder no tempo correto, demonstrar inteligência do modo correto.

Correto? Correto para quem? A escola é um dos melhores lugares para perceber a contradição. Colocamos vinte, trinta crianças numa sala e sabemos que nenhuma tem a mesma impressão digital. Nenhuma tem exatamente o mesmo rosto, a mesma história, a mesma personalidade ou o mesmo organismo. Mas esperamos que tenham o mesmo cérebro. Que aprendam juntas, da mesma maneira, no mesmo tempo e sejam avaliadas pela mesma régua.

E quando alguma escapa da linha? A pergunta frequente é: “O que há de errado com ela?”. A pergunta certa seria: “O que há de inadequado no ambiente que oferecemos a ela?”. A mudança é gigantesca.

Uma pessoa pode sofrer profundamente com aspectos de sua condição neurodivergente. Pode precisar de acompanhamento, adaptações, terapias, medicamentos ou apoio permanente. Inclusão não se faz com frases bonitas. Mas também não se faz tentando apagar o que torna alguém singular.

Há crianças que passaram anos sendo chamadas de preguiçosas quando enfrentavam dificuldades de atenção. Outras foram vistas como indisciplinadas porque não conseguiam permanecer imóveis. Algumas pareciam desinteressadas enquanto estavam, na verdade, entediadas diante de conteúdos muito abaixo de sua capacidade. Há ainda aquelas que apresentam grande habilidade em determinada área e enorme dificuldade em outra.

O cérebro consegue ser contraditório. Ainda bem. O problema é nossa obsessão pela média que organiza estatísticas. Não deveria aprisionar pessoas. Vale para a escola, ao trabalho, às relações familiares e à vida social.

Quantas pessoas passaram décadas tentando parecer o que os outros consideravam normal? Aprendendo a disfarçar desconfortos. Ensaiando comportamentos. Silenciando interesses. Controlando gestos. Diminuindo capacidades para não parecer demais. Escondendo dificuldades para não parecer de menos. Um enorme gasto de energia para conseguir parecer igual.

A sociedade verdadeiramente inclusiva se faz quando ninguém precisa desperdiçar tanta força tentando convencer os outros de que merece estar naquele lugar. Inclusão não é favor. Também não é simplesmente abrir a porta. É permitir que a pessoa entre sem exigir que deixe parte de si do lado de fora. A natureza nos ensinou uma coisa óbvia que demoramos demais para aplicar a nós mesmos. Diversidade é força.

Celebramos biodiversidade. Defendemos ecossistemas porque sabemos que ambientes constituídos por diferentes espécies são mais ricos e resistentes. Curiosamente, quando chegamos aos seres humanos, ainda temos certa paixão pela padronização. Queremos o comportamento certo. O aprendizado certo. A inteligência certa. A comunicação certa. O cérebro certo. Mas quem decidiu qual é? Que critérios foram usados? Que método?

O avanço mais bonito não é descobrir como fazer todo mundo caber no padrão. Mas compreender que o padrão é que precisa aprender a caber em todo mundo. Voltamos à pergunta inicial. E se a diferença não for defeito? Pessoas não nasceram para caber em moldes. Os moldes é que deveriam servir às pessoas.