A Cultura do futuro está na pauta do governo Lula 4. Mas, no Dia Nacional da Cultura, artistas pedem mudanças no MinC e abrem uma discussão necessária sobre os desafios da indústria que movimenta bilhões, produz identidade e ajuda a equilibrar a sociedade brasileira
Se Rui Barbosa pudesse participar das comemorações de seu aniversário, neste 5 de novembro, provavelmente interromperia a solenidade para fazer algumas perguntas. Afinal, o baiano nascido em 1849, cuja inteligência atravessou gerações, dificilmente ficaria satisfeito apenas com discursos e homenagens. Querer saber para onde caminha a Cultura brasileira seria um bom começo.
E encontraria uma conterrânea no centro da conversa. A ministra Margareth Menezes, cantora de trajetória respeitável e protagonista da reconstrução do Ministério da Cultura, tornou-se personagem de um debate que precisa ser compreendido sem transformar a divergência em desmerecimento.
É salutar mudar. Renovar ideias, gestores e métodos não significa negar o trabalho realizado. Margareth representou a Cultura brasileira com dignidade, defendeu sua diversidade e ajudou a recuperar estrutura ministerial que havia sido extinta. Reconhecimento, entretanto, não deve significar continuidade obrigatória.
O governo Lula que começará em janeiro de 2027 terá a oportunidade de avaliar profundamente mais de duas décadas de políticas culturais. O que funcionou? O que envelheceu? O que precisa ser preservado? E, principalmente, qual será a Cultura do futuro?
O dinheiro cresceu. E as oportunidades?
A discussão ganhou força com manifestos encaminhados a Lula. O mais recente, divulgado em 3 de novembro, reúne mais de 200 artistas e profissionais, entre eles Ruth Rocha, Fernando Morais, Bruno Gagliasso, Anna Muylaert, Laís Bodanzky e Marcélia Cartaxo.
A cobrança por renovação na condução do MinC traz signatários questionando dependência de editais, concentração de recursos, ausência de estratégia mais abrangente de desenvolvimento cultural e atraso na regulamentação das plataformas digitais.
A insatisfação não representa unanimidade entre os artistas, tampouco comprova favorecimento político na distribuição de dinheiro público. Mas revela inquietação legítima. Ter mais recursos disponíveis não significa, necessariamente, democratizar o acesso a eles.
Margareth já havia respondido a críticas anteriores. Reconheceu a necessidade de metas públicas, defendeu a reconstrução institucional e afirmou que financiamento cultural não exige fidelidade política. São posições importantes. Até agora, porém, não há confirmação pública de que Lula tenha decidido substituí-la.
O governo apresenta números expressivos. A captação pela Lei Rouanet alcançou R$ 3,41 bilhões em 2025, crescimento de 45,1% em relação a 2023. Todas as regiões avançaram. Entretanto, aproximadamente 72% dos recursos captados permaneceram no Sudeste. E bateu recorde novamente. Anunciado, hoje, o crescimento de propostas submetidas à Lei Rouanet até o último dia 31 de outubro chegaram a 26.650 proposições. Crescimento de 11,6% em relação a 2025.
É necessário rever investimento onde a produção cultural é forte. Também criar condições para que a força floresça onde historicamente faltaram oportunidades. O artista de uma pequena cidade do Piauí não pode precisar mudar para São Paulo para conseguir demonstrar seu talento.
de Gil ao Brasil digital
A história ajuda a entender a dimensão da transformação. Em 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso, a execução orçamentária do MinC foi de R$ 380 milhões, em valores corrigidos para dezembro de 2007. No primeiro ano de Lula, em 2003, ficou em R$ 350,5 milhões. O crescimento não foi imediato. Mas, sob Gilberto Gil, ganhou intensidade. Em 2006, a execução chegou a R$ 713,4 milhões e, em 2007, a R$ 824 milhões. Mais que dobrava, em termos reais, o patamar encontrado em 2002.
A expansão financeira acompanhou transformação conceitual. A Cultura deixou de ser pensada exclusivamente como espetáculo ou patrimônio monumental. Passou a incorporar manifestações populares, comunidades, identidades e a cidadania cultural. Vieram Pontos de Cultura, movimentos de participação social e uma concepção mais ampla do papel do Estado.
O tempo avançou. O Brasil de 2003 não conhecia o poder atual das plataformas digitais, a economia dos influenciadores, a inteligência artificial generativa ou a capacidade de algoritmos determinarem o que milhões de pessoas vão assistir, ouvir e consumir. O desafio contemporâneo não é apenas financiar produção. É garantir circulação, preservar a diversidade e assegurar remuneração justa a quem cria.
indústria e identidade
Os números da economia criativa merecem lugar de destaque em qualquer discussão sobre desenvolvimento nacional. Segundo a Firjan, a indústria criativa movimentou R$ 393,3 bilhões em 2023, correspondentes a 3,59% do PIB brasileiro. A participação econômica do segmento era de 2,09% em 2004.
Para dimensionar melhor o resultado, a construção civil representou aproximadamente 3,5% do PIB em 2023. A agropecuária, considerada isoladamente, respondeu por cerca de 6%. Toda a indústria brasileira, incluindo transformação, extração, construção e serviços industriais, gerou aproximadamente R$ 2,4 trilhões naquele ano.
São recortes econômicos distintos, alguns sobrepostos, que não devem ser somados. Mas deixam evidente que criatividade é assunto de indústria, emprego, tecnologia e desenvolvimento.
O levantamento da Firjan registra aproximadamente 1,26 milhão de profissionais criativos com emprego formal em 2023. Já o IBGE identificou 5,9 milhões de pessoas ocupadas nas atividades culturais em 2024, numa definição mais abrangente. Apesar de apresentarem escolaridade superior à média nacional, 44,6% dos trabalhadores culturais estavam na informalidade. Indústria que gera riqueza não pode conviver tranquilamente com a precariedade de quem a sustenta.
A população também demonstra o que espera da área. Pesquisa da Fundação Itaú e Datafolha, realizada em julho de 2026, identificou que 42% dos entrevistados priorizavam ampliar atividades culturais gratuitas e 32% defendiam criar equipamentos públicos de cultura. Não é pesquisa de aprovação da ministra. Mas é igualmente importante. A indicação de que os brasileiros querem participar da vida cultural, não apenas assistir à distribuição de recursos entre produtores.
3 caminhos
A renovação pode começar com três iniciativas objetivas, simples e executáveis A primeira é democratizar o financiamento. Criar metas regionais verificáveis, abrir oportunidades para novos proponentes e disponibilizar informações claras sobre beneficiários, valores e resultados. Quem recebe dinheiro público precisa prestar contas à sociedade e quem nunca recebeu precisa encontrar portas abertas.
A segunda é investir na permanência. Teatro, dança, música, literatura, bibliotecas, museus, cinema, cultura popular e formação artística necessitam de continuidade. Não se constrói uma companhia teatral sólida com edital ocasional e três anos de espera pelo próximo. É preciso financiar criação, formação, circulação e manutenção dos grupos. Ou eles vão enfraquecer e não vou escrever o que pode acontecer depois.
A terceira é preparar o Brasil à economia criativa digital. Regulamentar o streaming, proteger direitos autorais, discutir o uso de obras pela inteligência artificial, estimular jogos digitais, animação e audiovisual independente, além de criar oportunidades de exportação da produção brasileira. Atualização para estar em dia com os novos tempos e as tecnologias que brotam das telas todos os dias.
A estratégia exige articulação com Educação, Ciência e Tecnologia, Indústria, Comunicações e Relações Exteriores. Cultura não pode continuar sendo tratada como sobremesa do desenvolvimento. Ela participa da elaboração do cardápio inteiro.
fiel da balança
A mudança de governo oferece oportunidade para avaliação, não para revanchismo. Não precisamos do Ministério da Cultura administrado pela lógica das disputas entre grupos, mas da instituição capaz de reconhecer o valor da experiência e, simultaneamente, abrir espaço para novas gerações.
Também precisamos olhar a quem quase nunca aparece nas fotografias oficiais. Técnicos, iluminadores, cenógrafos, figurinistas, produtores, mestres populares, artesãos, músicos, bailarinos e tantos profissionais que fazem a arte acontecer antes da abertura das cortinas. Sem eles, não há indústria criativa. Há apenas boas intenções esperando pelo espetáculo.
A Cultura tem ainda a responsabilidade que nenhuma estatística consegue medir integralmente. Provoca perguntas, revela injustiças, preserva memórias, celebra diferenças e transforma sentimentos individuais em consciência coletiva. Sempre será o fiel da balança da sociedade. Não deve pertencer a determinado governo ou pensamento. Precisa conservar a liberdade de questionar todos eles.
No aniversário de Rui Barbosa, cabe imaginar o velho baiano observando a Esplanada dos Ministérios e lembrando aos seus ocupantes que inteligência não se demonstra apenas acumulando conhecimentos. Mas sabendo utilizá-los em benefício da coletividade.
Lula tem diante de si a oportunidade de transformar a reconstrução necessária em novo ciclo de desenvolvimento cultural. Margareth tem contribuição que merece respeito. Os artistas, inclusive aqueles que discordam do governo, têm o direito de participar da construção.
Que o próximo capítulo não seja a simples troca de nomes na porta do gabinete. Que seja mudança de horizonte. A Cultura do futuro não será a que conseguir mais recursos para os de sempre. Será aquela capaz de fazer com que mais brasileiros possam criar, produzir, trabalhar, viver de sua arte e reconhecer-se nela. Quando isso acontecer, não será apenas a Cultura que terá avançado. Será o próprio Brasil.