Certezas chegam cedo. Entram em nossa vida sem pedir licença, escolhem a melhor cadeira da sala e começam a dar ordens. Algumas ainda trazem um martelo imaginário, prontas para encerrar qualquer discussão com um solene “é assim porque é e pronto”. Caso encerrado. Nem o Supremo ousaria recorrer.
Durante algum tempo, acreditamos nelas. Afinal, certeza bem apresentada impressiona. Fala alto, usa palavras definitivas e raramente demonstra dúvida. Parece saber o caminho, o endereço e até onde estacionar. O tempo passa. Embora discreto, tem habilidade especial para desmoralizar convicções muito seguras de si.
Aparece uma experiência nova. Uma conversa inesperada. Uma pessoa que vive de um jeito que nunca imaginamos. Uma informação que chega sem bater e desmonta, em poucos minutos, opinião cuidadosamente construída durante vinte anos. De repente, a certeza que servia tão bem começa a apertar.
Como uma roupa antiga que um dia vestiu perfeitamente, agora prende a respiração, incomoda nas mangas e ainda insiste em afirmar que o problema é o corpo. Certeza também envelhece. Algumas amadurecem e viram sabedoria. Outras apenas ficam velhas, rabugentas e resistentes a qualquer atualização.
Há certezas que já deveriam estar aposentadas, tomando café numa varanda e contando histórias do tempo em que comandavam o pensamento. Mas continuam na ativa, ocupando cargos importantes e dando entrevistas. Nós nos apegamos às opiniões porque elas fazem parte da imagem que construímos de nós mesmos. Mudar de ideia, então, parece quase uma traição pessoal.
Como assim eu estava errado? Eu? Justamente eu, que já expliquei esse assunto tantas vezes aos outros? A vaidade não gosta de descobertas. Prefere defender um erro até o fim a reconhecer que poderia ter aprendido alguma coisa no caminho. Mudar de ideia não é derrota. A derrocada está em perceber que a ponte caiu e seguir avançando só para não admitir que escolheu a estrada errada.
Podemos simplesmente dizer “eu pensava assim e hoje penso diferente”. Frase curta, econômica e extremamente eficiente. Nenhum raio cai do céu. Nenhuma sirene toca. A certidão de nascimento continua válida. O orgulho talvez precise sentar um pouco e beber água, que logo se recupera.
Aceitamos atualizações em quase tudo. Atualizamos o telefone, o computador, os aplicativos, a televisão e até a fotografia do perfil. Há quem troque a própria aparência digital toda semana, mas mantém a mesma opinião desde 1987. O aparelho pode receber uma nova versão. O pensamento, aparentemente, veio lacrado de fábrica.
Claro que nem toda ideia antiga perdeu a validade. Respeito, honestidade, responsabilidade e solidariedade continuam funcionando perfeitamente, sem necessidade de assistência técnica. Preconceitos, julgamentos apressados e certezas herdadas precisam de revisão periódica.
Nem tudo o que veio dos nossos antepassados é sabedoria. Às vezes, é apenas opinião antiga passada de geração em geração porque ninguém encontrou o recibo para devolver. Rever uma certeza não significa viver ao sabor do vento. Não é mudar de opinião conforme a plateia, a conveniência ou a pesquisa de popularidade. Isso não é evolução. É meteorologia moral.
A verdadeira mudança acontece quando a experiência amplia o olhar. Quando o conhecimento corrige o julgamento e a consciência finalmente alcança o que o orgulho vinha tentando esconder. A vida ensina devagar. Primeiro, temos respostas para tudo. Depois, descobrimos algumas perguntas. Mais tarde, percebemos que as perguntas eram melhores do que boa parte das respostas.
Amadurecer é trocar a pressa de concluir pela disposição de compreender. Há pessoas que envelhecem construindo muralhas de certezas ao redor de si. Ninguém entra, nenhuma ideia sai e até a luz precisa apresentar documento. Outras envelhecem abrindo janelas. Deixam o vento circular, mudam os móveis de lugar, retiram algumas convicções da parede e admitem que a paisagem pode ser maior do que parecia.
Essas costumam conservar juventude no olhar. A mente aberta não é uma cabeça vazia. É casa onde as janelas continuam funcionando e as certezas, quando envelhecem, não precisam ser expulsas. Basta que aprendam a não mandar mais em tudo.