Agora o artista tem carteirinha. Uns dentro do mapa, outros fora da cena.
Teresina coloca cadastro, editais e identificação cultural no celular e tenta diminuir a velha especialidade brasileira de produzir papel para provar que se produz arte. Uma verdadeira arte.
Artista já teve de provar muita coisa nesta vida. Que trabalha. Que vive de arte. Que tem endereço, currículo, portfólio. Que existe. Dependendo do edital, só falta apresentar uma testemunha que garanta que realmente sabe cantar, dançar, pintar, escrever, representar, tocar ou fazer o público rir, no ato da inscrição.
Em Teresina, uma parte da novela burocrática promete ganhar roteiro mais curto. Já está funcionando no Teresina ON o SISARTHE, plataforma criada para reunir cadastro municipal de artistas e agentes culturais, emitir a Carteira de Identificação Cultural e concentrar inscrições e acompanhamento de processos relacionados a editais públicos da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves. É documento de identidade para quem passou a vida sendo identificado pela obra.
Menos papel, mais palco.
A ideia é simples e merece atenção. Parte dos procedimentos era feita por e-mail e algumas etapas podiam exigir deslocamento até a Fundação. Com o novo sistema, os serviços podem ser acessados pelo celular, inclusive com acompanhamento dos processos pela própria plataforma.
Traduzindo do burocratês para o português. Menos. Menos impressão, repetição, procura pelo PDF e menos desespero atrás da certidão que foi emitida para o edital passado e que, misteriosamente, desapareceu.
Artista já tem de decorar letra, texto, coreografia, partitura. Até projeto?
A proposta nasceu com dimensão maior do que simplesmente cadastrar cantores e músicos. Durante o desenvolvimento, o sistema foi pensado para reunir artistas, grupos, produtores, coletivos e outros agentes culturais. A intenção também é produzir um mapa preciso de quem faz cultura em Teresina, onde essas pessoas estão e em quais linguagens trabalham. Pelo menos aqueles que tiverem afim. Será que pensaram em busca ativa? Já pensaram nos que são excluídos digitais, também?
Cultura que não aparece nos dados corre o risco de não aparecer no planejamento.
Teresina não é culturalmente formada apenas pelos artistas mais conhecidos, pelos grandes palcos ou por quem já domina a linguagem dos editais. Há produção na periferia, nos bairros, nos terreiros, nas quadrilhas, nos grupos tradicionais, nos coletivos, no audiovisual, na dança, no artesanato, na literatura, no teatro, na cultura popular e nas linguagens que surgem todos os dias.
Só o Edital de Chamamento Público nº 001/2026 da Política Nacional Aldir Blanc teve 799 propostas homologadas, distribuídas por áreas que foram da música ao audiovisual, passando pelas culturas tradicionais, dança, patrimônio, literatura, culturas indígenas, performance, design, moda e até jogos eletrônicos.
A cultura é grande e o cadastro é pequeno.
O SISARTHE permite emissão de Carteira de Identificação Cultural. Uma carteira para chamar de sua. Não é carteira de fã. Nem dá direito automático a camarim, aplauso ou bis. Mas identifica oficialmente o agente cultural cadastrado junto ao município e integra a estratégia de acesso às políticas públicas da área.
Houve um tempo em que o trabalhador da cultura precisou explicar que arte também é profissão, atividade econômica, conhecimento, renda e trabalho. Músico, atriz, escritor, sonoplasta, produtor, artesão, humorista trabalha. Trabalham muito. Embora algumas repartições façam esforço diário para provar que a concorrência é grande.
Cadastro não pode virar catacumba. Plataforma nenhuma resolve sozinha a política cultural. O verdadeiro teste vem depois. O cadastro precisa permanecer atualizado, ser simples, acessível e realmente utilizado para orientar editais, formação, descentralização de recursos e outras ações. É importante que ninguém fique invisível porque tem menos intimidade com celular, internet ou formulários digitais.
Tecnologia boa não é a que aumenta o número de cliques, mas a que diminui a distância.
A administração afirma que os dados reunidos deverão permitir identificar segmentos, distribuição dos agentes culturais pela cidade e áreas que demandam maior atenção, auxiliando o planejamento de ações de fomento e futuros editais. Aí está o ponto. Não basta saber quantos artistas existem. É preciso saber quem são, onde estão, o que produzem e de que precisam.
Cultura também precisa ser encontrada.
O SISARTHE foi desenvolvido pela Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com a Fundação Municipal de Cultura e acabou incorporado ao Teresina ON. A novidade aparentemente administrativa, poderia passar despercebida entre um despacho e outro. Mas não deveria.
Um bom cadastro cultural é uma sofisticada cartografia humana da cidade. Mostrar onde começa o artista que ainda não tem nome conhecido, mas já tem obra. Pode ajudar o poder público a finalmente enxergar a Cultura com menos miopia e um pouco mais de nitidez. Se funcionar como prometido, sobra mais tempo para o que artista sabe fazer melhor. Arte. Ninguém merece preencher o mesmo formulário pela décima vez.