No Dia Nacional do(a) Arqueólogo(a), o Piauí celebra os profissionais que encontram, protegem e interpretam as páginas mais antigas de nossa história.
Ainda não havia livros, mapas, cidades nem fronteiras. A humanidade já escrevia nas pedras, paredes dos abrigos, nos objetos moldados pelas mãos, nos restos de fogueiras, nas sepulturas e marcas deixadas sobre o chão. A arqueologia sabe ler essa escrita antiga.
Hoje, 26 de julho, Dia do(a) Arqueólogo(a), é necessário reconhecer e parabenizar os profissionais que dedicam a vida a localizar, estudar, interpretar e proteger os vestígios de sociedades que nos antecederam. Seu trabalho não se resume a encontrar objetos antigos. Cada fragmento, pintura, gravura, osso, instrumento ou camada de solo pode ajudar a reconstruir uma parte da experiência humana.
Quando se fala em arqueologia, o Piauí pode afirmar com orgulho que aqui é o lugar. Nosso território possui pinturas e gravuras rupestres de norte a sul. Há registros nos paredões, nas cavernas, nos cânions e nos abrigos naturais. São instrumentos de pedra, cerâmicas, sepultamentos e diferentes sinais da presença humana. No litoral, os sambaquis e outros sítios formados por conchas, ossos e objetos revelam populações antigas que viveram da relação com o mar, os rios e os manguezais.
O Piauí é um imenso documento arqueológico. A Serra da Capivara tornou-se a referência mais conhecida. Seu conjunto de sítios, pinturas e vestígios colocou o estado no centro de debates científicos sobre a antiguidade da presença humana nas Américas. As figuras pintadas nas pedras apresentam caçadas, danças, animais, rituais, encontros e movimentos coletivos. São cenas que demonstram conhecimento, comunicação, organização social e sensibilidade artística.
Muito dessa grandeza chegou ao mundo por causa da coragem e da persistência de Niède Guidon, nossa maior referência na arqueologia. Ela compreendeu que os paredões guardavam um patrimônio universal. Reuniu pesquisadores, enfrentou resistências, chamou a atenção da ciência internacional e lutou pela criação e pela preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara. Seu trabalho mostrou que o sertão piauiense não estava à margem da história humana. Poderia estar no centro de algumas de suas perguntas mais importantes.
O legado vai além das descobertas. Niède ensinou que preservar arqueologia também é produzir ciência, educação, turismo, identidade, renda e desenvolvimento às comunidades no entorno dos sítios. Mas a Serra da Capivara é apenas uma parte dessa riqueza. A Serra das Confusões, com seu território gigantesco, seus abrigos, paredões, cavernas e áreas ainda pouco pesquisadas, deve guardar tesouros que a história preservou no solo piauiense. O que já foi localizado e catalogado provavelmente é menor do que aquilo que ainda permanece oculto.
Onde não houve pesquisa, não significa que não existam vestígios. Significa apenas que eles ainda não foram encontrados, estudados ou reconhecidos. É a leitura realista que aumenta nossa responsabilidade. Incêndios, vandalismo, mineração, obras sem acompanhamento técnico, retirada de peças e falta de fiscalização podem destruir em minutos informações que resistiram durante milhares de anos.
A arqueologia não estuda apenas objetos. Estuda o lugar onde eles foram encontrados, sua profundidade, sua posição e sua relação com outros vestígios. Quando alguém retira uma peça do solo ou altera um sítio, não leva somente um objeto. Arranca a palavra da frase e compromete a leitura de todo o conjunto.
A importância da arqueologia está também em recontar nossa verdadeira história. Durante muito tempo, o Brasil foi ensinado como se tivesse começado em 1500. A chegada dos portugueses aparecia como abertura oficial da narrativa. Tudo o que existia antes era tratado como uma espécie de introdução imprecisa. A arqueologia desmonta a visão.
Bem antes da colonização, diferentes povos já ocupavam o território, criavam tecnologias, produziam arte, estabeleciam relações sociais, realizavam rituais e acumulavam conhecimentos sobre plantas, animais, rios, clima e paisagem. Os povos não estavam esperando a história começar. Eles já faziam história. Uma pintura rupestre é documento. Uma gravura talhada na pedra é linguagem. Um sambaqui é monumento. Uma fogueira apagada há milhares de anos também guarda memória.
Precisamos fortalecer as universidades, os museus, os laboratórios, os parques, os órgãos de preservação e as equipes de pesquisa. É necessário formar novos arqueólogos, ampliar os levantamentos e fazer com que cada comunidade conheça e proteja o patrimônio existente em seu território.
Neste dia, nossos parabéns aos arqueólogos e arqueólogas que escavam o solo, estudam as pedras e devolvem voz às pessoas que o tempo tentou silenciar. O Piauí tem muito a revelar. Ainda conhecemos apenas uma pequena parte de sua verdadeira dimensão arqueológica.
Debaixo dos nossos pés, entre pedras, conchas, cavernas e paredões, existe uma história que ainda espera ser encontrada e contada. Aqui é o lugar certo do redescobrimento.