A serpente no banco dos réus

Transformamos um animal essencial ao equilíbrio ambiental em símbolo dos defeitos que pertencem exclusivamente às espécies de seres humanos menos admiráveis.

Transformamos a serpente em sinônimo de traição, falsidade e maldade, embora seja o ser humano quem inventa intrigas, arma emboscadas e distribui veneno sem precisar de presas

Hoje é o Dia Mundial da Cobra. Uma data complicada ao animal, porque ele chega à própria homenagem carregando uma reputação que não construiu. A cobra não escreve comentários anônimos. Não espalha boatos. Não cria perfis falsos. Não promete fidelidade enquanto combina a rasteira. Não participa de conspiração em grupo de WhatsApp nem manda áudio dizendo “não tenho nada contra, mas...”. Mesmo assim, ficou com a fama.

Chamamos de cobra a pessoa traiçoeira. Dizemos que alguém tem língua de cobra quando fala mal dos outros. Falamos em ninho de cobras para descrever ambientes dominados por intrigas. Quando a falsidade aparece, logo procuramos um réptil para assumir a culpa.

A serpente deveria procurar um advogado. No tribunal das metáforas, foi condenada sem direito de defesa. Recebeu a pecha de falsa, perigosa, fria, calculista e traiçoeira. Tudo isso sem ter escrito uma única nota de esclarecimento, frequentado um gabinete ou disputado uma eleição.

A cobra apenas rasteja. Quem rebaixa é o ser humano. Ela não ataca reputações. Não fabrica provas. Não prepara dossiês. Não finge amizade para obter informação. Não oferece abraço pela frente enquanto afia o punhal pelas costas. Sua peçonha, quando existe, é parte de sua natureza. Não é estratégia de ascensão social.

Uma diferença fundamental. A cobra usa o veneno para caçar, alimentar-se ou defender-se. O ser humano, muitas vezes, usa o seu para divertir-se. Existem pessoas que envenenam uma sala inteira apenas levantando a sobrancelha.

A serpente, pelo menos, avisa. A cascavel toca o chocalho. Levanta a placa sonora. Mantenha distância. É mais transparente do que muita gente que chega sorrindo, pergunta pela família, elogia a roupa e, cinco minutos depois, começa o serviço de demolição. A cascavel faz barulho antes do perigo. O falso amigo oferece café.

A natureza, ao contrário das nossas fábulas morais, não distribui animais entre mocinhos e vilões. Cada espécie ocupa um lugar na engrenagem da vida. As serpentes são predadoras e também servem de alimento para outros animais. Ajudam a controlar populações de roedores e participam do equilíbrio das cadeias alimentares. O desaparecimento delas produziria desequilíbrios, infestações e escassez de alimento para outras espécies.

Enquanto chamamos a cobra de ameaça, ela trabalha silenciosamente para impedir que determinadas populações animais cresçam sem controle. É uma funcionária discreta e eficiente do ecossistema. Sem bater ponto nem apresentar relatório, não precisa contratar assessoria de imprensa e dificilmente será homenageada com uma placa. Ainda assim, cumpre a função sem exigir aplausos.

A cobra presta mais serviços ambientais do que muito projeto com nome bonito, logomarca verde e nenhuma árvore plantada. As serpentes também são fundamentais para a ciência. Seus venenos são estudados, e os animais mantidos por instituições como o Instituto Butantan participam da produção de soros antiofídicos que salvam vidas.

O veneno, quando passa pela inteligência científica, deixa de ser sentença e pode se transformar em caminho à vida. Lição que não pertence apenas à zoologia. Até as experiências dolorosas podem produzir conhecimento. Até o que nos assusta pode revelar alguma utilidade. Até o veneno, quando compreendido, pode gerar antídoto.

Mas preferimos continuar maltratando as cobras. Quando uma aparece, a primeira reação costuma ser matar. Pouco importa se é venenosa, inofensiva, rara ou importante ao ambiente. O medo chega antes da informação. A paulada vem antes da identificação. É assim também em outras áreas da vida. Primeiro destruímos. Depois perguntamos o que era.

Nosso relacionamento com as serpentes é feito de susto, desconhecimento e narrativas antigas. Elas aparecem em mitos, religiões, lendas, brasões, símbolos médicos, histórias de criação e contos populares. Em alguns lugares representam sabedoria, renovação e cura. Em outros, tentação, perigo e queda.

A cobra troca de pele. Nós é que raramente trocamos de preconceito. O que mais nos incomoda nela deve ser sua independência. A cobra não possui patas e, mesmo assim, chega aonde precisa. Não canta, não pede licença, não faz pose. Passa pelo mundo rente ao chão, como quem conhece os segredos da terra. Ela percebe vibrações que nossos pés apressados ignoram.

Habita frestas, matas, rios, árvores, campos e desertos. Sobreviveu a transformações profundas do planeta. Aprendeu a economizar movimentos. Não desperdiça energia tentando impressionar ninguém. A serpente não precisa parecer poderosa. Basta ser.

Também não existe maldade no bote. Existe instinto. Uma cobra não acorda ressentida porque outra cobra recebeu mais curtidas. Não sente inveja da pele alheia. Não monta um plano para tomar o território do vizinho por meio de uma campanha de difamação.

Nós humanizamos os animais para esconder o quanto animalizamos nossos próprios defeitos. Chamamos de burro quem consideramos pouco inteligente, embora o burro seja resistente e prudente. Chamamos de porco quem é sujo, apesar do animal não carregar qualquer culpa pelos hábitos humanos. Chamamos de galinha quem julgamos covarde ou promíscuo. Chamamos de cachorro quem desprezamos, mesmo sendo o cachorro um dos maiores símbolos de lealdade. E chamamos de cobra quem é traiçoeiro. A bicharada deveria processar a humanidade por danos morais.

Passou da hora de devolver cada defeito ao verdadeiro proprietário. A falsidade é humana. A fofoca é humana. A calúnia também é. A emboscada política, empresarial, familiar ou amorosa é uma invenção sofisticadamente humana. A cobra apenas tenta sobreviver num mundo em que seu habitat diminui, o calor aumenta, o alimento escasseia e qualquer encontro com gente pode ser fatal.

O Dia Mundial da Cobra, celebrado neste 16 de julho, existe justamente para chamar atenção à diversidade, beleza, importância ecológica e necessidade de proteção de animais tão temidos e incompreendidos.

Não se trata de colocar uma jararaca no colo, convidar uma jiboia para o café ou transformar a sala em serpentário. Respeitar a natureza não significa ignorar riscos. Significa agir com informação, procurar profissionais capacitados diante de um encontro e evitar a matança motivada apenas pelo pânico.

Toda vida selvagem exige distância, cuidado e responsabilidade. A cobra não quer amizade. Quer passagem. Vamos devolver a ela o direito de existir sem carregar os pecados que inventamos.

Que a serpente continue rastejando, caçando, trocando de pele e cumprindo sua função no planeta. E que nós, bípedes orgulhosos, aprendamos a reconhecer onde está o verdadeiro veneno. Quase sempre, a cobra mais perigosa não está escondida no mato. O medo diminui onde há informação. A natureza, mesmo quando assusta, tem mais a ensinar do que a ameaçar. A cobra não tem culpa das nossas metáforas.