A ditadura da opinião imediata

A era digital democratizou a voz, mas também criou a ansiedade coletiva por posicionamento, fazendo o silêncio parecer suspeito e a dúvida virou um luxo intelectual quase inalcançável.

Na era dos comentários infinitos, das certezas instantâneas e dos julgamentos em tempo real, pensar virou uma atividade quase subversiva. Uma cena se repete milhares de vezes por segundo ao redor do planeta. Um fato acontece. Antes de ser compreendido, já foi comentado. Antes mesmo de ser investigado, já foi julgado. Antes mesmo de ser contextualizado, já foi transformado em trincheira. E mesmo que os envolvidos tenham entendido o que aconteceu, a multidão digital já produziu sentenças, absolvições, condenações, teorias, memes e diagnósticos.

Os arqueólogos do futuro hão de identificar o comportamento como uma das características mais marcantes da humanidade do século XXI. A civilização que desenvolveu máquinas capazes de conversar com satélites, decifrou o genoma humano e produziu inteligência artificial, passou a enfrentar enorme dificuldade para executar uma tarefa relativamente simples. Esperar alguns minutos antes de emitir uma opinião.

A velocidade sempre fascinou a espécie humana. Primeiro vieram as estradas. Depois os navios, trens, aviões e a internet. O progresso parecia consistir em reduzir distâncias e encurtar tempos. O problema é que, em algum ponto da jornada, a rapidez deixou de ser uma ferramenta e passou a ser uma exigência moral. Hoje não basta saber. É preciso saber imediatamente. Não basta compreender. É preciso reagir. Não basta refletir. É preciso publicar.

As redes sociais transformaram a opinião em moeda de circulação permanente. Antigamente, a maioria das opiniões nascia nas mesas de jantar, nos bancos de praça, em corredores das universidades, bares ou salas de estar. Podiam até ser equivocadas, mas desapareciam com o vento da conversa. Agora elas ficam registradas, contabilizadas, curtidas, compartilhadas e impulsionadas por algoritmos que descobriram uma verdade simples e lucrativa Poucas coisas prendem mais a atenção humana do que a sensação de estar certo.

Foi assim que surgiu uma figura tipicamente contemporânea. O comentarista permanente de redes sociais. Não estamos falando dos articulistas, cronistas, jornalistas, cientistas ou especialistas que dedicam anos ao estudo de determinados temas. Estamos falando daquela nova personagem digital que acorda pronta para opinar sobre tudo. Economia às oito da manhã. Geopolítica às nove. Medicina às dez. Futebol ao meio-dia. Religião à tarde. Cinema à noite. Direito constitucional antes de dormir. É um fenômeno fascinante.

A humanidade contemporânea produziu incontáveis especialistas instantâneos. Uma tragédia ambiental acontece e surgem milhares de engenheiros florestais improvisados. Uma crise sanitária explode e aparecem legiões de infectologistas de ocasião. Uma decisão judicial ganha repercussão e brotam constitucionalistas em cada comentário. Um conflito internacional estoura e multidões se transformam em estrategistas geopolíticos sem jamais terem localizado os países envolvidos em um mapa.

O curioso é que a compulsão opinativa raramente está ligada ao desejo sincero de compreender. Em muitos casos, nasce de outra necessidade. Existir. Nas redes sociais, ser visto tornou-se uma forma contemporânea de reconhecimento. Uma das maneiras mais rápidas de ser visto é comentar. Não importa necessariamente o que se diz. Importa participar, ocupar espaço, demonstrar presença, sinalizar pertencimento a determinado grupo.

A opinião deixou de ser apenas uma conclusão intelectual. Tornou-se também uma identidade social. Muitas pessoas não comentam porque refletiram profundamente sobre um assunto. Comentam porque o silêncio passou a parecer suspeito. Como se a ausência de manifestação representasse omissão, ignorância ou falta de posicionamento moral.

Curiosamente, uma das frases mais revolucionárias do nosso tempo é "Ainda não tenho opinião formada sobre isso. Poucas declarações exigem tanta coragem atualmente. Na época em que a dúvida perdeu prestígio, a prudência foi confundida com indecisão. A cautela virou sinônimo de fraqueza e a complexidade passou a ser vista como inconveniente. O algoritmo prefere respostas rápidas. O mercado da atenção prefere emoções intensas. A lógica das plataformas recompensa quem reage, não quem pondera. A consequência é a ascensão do julgamento instantâneo.

O tribunal digital funciona vinte e quatro horas por dia. Não possui juiz, não possui defesa organizada, não possui contraditório e raramente aceita recurso. Uma manchete basta, um trecho de vídeo, uma fotografia borrada. Um recorte fora de contexto e em poucos minutos reputações são destruídas ou glorificadas por multidões que muitas vezes desconhecem os fatos essenciais. A ironia é que a própria civilização foi construída na direção oposta.

A ciência avança porque desconfia das respostas fáceis. A filosofia prospera porque formula perguntas difíceis. O jornalismo sério depende da apuração. A Justiça depende da investigação. A democracia depende do debate. Nenhuma das instituições sobrevive baseada apenas em impulsos. Todas exigem tempo para observar, escutar, confrontar versões, amadurecer conclusões. Recurso mais ameaçado da contemporaneidade.

Com tanta informação, tecnologia de ponta e comunicação com as próprias plataformas, o tempo necessário para transformar informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria foi devorado pelas telas que exigem respostas imediatas. Notificações piscam. Comentários chegam. Vídeos se sucedem. Tendências nascem e morrem no intervalo de poucas horas.

Nem sempre a contribuição mais inteligente é falar. Às vezes é ouvir, pesquisar, mudar de ideia ou admitir desconhecimento. Em determinadas circunstâncias, a atitude mais sofisticada intelectualmente continua sendo a que nossos avós conheciam muito bem. Ficar em silêncio por alguns instantes. Não por omissão nem por medo. Mas por respeito à complexidade das coisas.

Existem perguntas que merecem reflexão antes da resposta. Acontecimentos que precisam de contexto antes do julgamento. Há momentos que o silêncio não representa ausência de pensamento. É justamente o contrário. Representa a inteligência aguardando que a pressa saia da sala para que a sabedoria possa entrar.