A Criatura desafia o Criador

Depois de décadas bebendo na fonte brasileira, o Japão chega ao mata-mata com projeto ambicioso, coragem e a ousadia de quem já não aceita mais ser tratado como aprendiz.

O Brasil ajudou o Japão a sonhar grande no futebol. Agora encara uma seleção que aprendeu com os mestres, cresceu com método e entra em campo sem pedir licença.

Brasil e Japão, de um lado o país que ensinou o mundo a tratar a bola como se ela tivesse alma, temperamento e CPF. Do outro, o país que olhou para essa arte, fez reverência, anotou tudo, treinou em silêncio, organizou a casa, construiu método, criou liga, formou jogadores, exportou talentos e agora aparece diante do professor com ousadia perigosa. Aprendeu bem demais.

É o criador diante da criatura. Mas cuidado. A criatura cresceu. O Japão não chega ao jogo como figurante simpático, daqueles que entram em campo para ouvir elogio de narrador educado. O Japão não vem para tirar foto, trocar flâmula e agradecer a aula. Eles vêm para cima, com plano, perna, pulmão, disciplina, velocidade e aquela frieza de quem não se assusta com camisa pesada. A camisa brasileira pesa toneladas.

Bola rolando não respeita museu. Respeita atenção, coragem, movimento e gol. É bom o Brasil entrar de olhos bem abertos. A história do futebol japonês moderno tem muito de nossa nação. Antes do Japão virar a potência asiática organizada, antes de a J-League ganhar força, antes da seleção japonesa deixar de ser promessa educada para virar ameaça competitiva, houve um longo período de aprendizado. Onde o Brasil foi professor, padrinho, inspiração, laboratório e, às vezes, até terapeuta ocupacional da bola.

O Japão entendeu cedo que futebol não se aprende apenas com prancheta. Ela ajuda. Relatório ajuda. Centro de treinamento, também. Mas futebol precisa de algo que não cabe em planilha. A malícia do passe, a malandragem do corpo, a finta, a intimidade com improviso, drible que nasce onde o manual acabou. Aí entra e sobra o Brasil.

Em 1972, Sérgio Echigo abriu caminhos ao chegar ao futebol japonês vindo da experiência brasileira. Em 1977, Ruy Ramos desembarcou no Japão, fez história, naturalizou-se, defendeu a seleção japonesa. Virou personagem que atravessa fronteiras sem pedir autorização à geografia. Depois vieram tantos outros brasileiros, cada um levando um pedaço do jeito nacional de conversar com a bola.

Nenhum nome simboliza tanto esse intercâmbio quanto Zico. O Galinho de Quintino chegou ao Japão em 1991. O futebol japonês ainda arrumava os móveis da casa para receber a visita do profissionalismo. Foi jogar no Sumitomo Metal Industries, clube que depois se tornaria o Kashima Antlers. Em 1993, ano de nascimento da J-League, Zico já estava lá, ajudando a transformar entusiasmo em cultura esportiva. Jogou até 1994, mas sua permanência no Japão foi muito maior que os minutos em campo.

Além de jogador, foi professor de liturgia. Ensinou profissionalismo, comportamento, cuidado com o jogo, respeito ao torcedor, responsabilidade com o clube. No Japão, virou ídolo. É referência moral. Um brasileiro transformado em patrimônio afetivo japonês.

Comandou a seleção do Japão entre 2002 e 2006, venceu a Copa da Ásia de 2004 e levou o país à Copa do Mundo de 2006. Naquele Mundial, o Japão de Zico enfrentou justamente o Brasil. O professor brasileiro estava no banco japonês. O criador já começava a ver a criatura ensaiando passos próprios.

A J-League, lançada em 1993, também virou uma grande avenida para a presença brasileira. Dunga passou por lá. Leonardo, Jorginho, Careca, Bebeto, Müller, Alcindo, Bismarck, Elivelton e tantos outros ajudaram a dar musculatura técnica, prestígio e imaginação ao futebol japonês. Treinadores brasileiros também foram importantes ao processo. O Brasil exportou bola, método, carisma e sotaque.

O Japão fez algo muito japonês. Não se contentou em imitar. Observou. Estudou. Repetiu. Melhorou. Organizou. Pegou o encantamento brasileiro e colocou para morar dentro de uma estrutura de longo prazo. Criou base. Formou treinadores. Fortaleceu clubes. Levou jogadores à Europa. Montou uma seleção com leitura de jogo, intensidade e coragem.

Os japoneses estabeleceram uma ambição que não é pequena. Querem vencer a Copa do Mundo até 2050. Olha o tamanho da ousadia. Tem país que promete tapar buraco até sexta-feira e não consegue. O Japão olhou ao futebol mundial e marcou seu prazo de vitória. Não é frase de vestiário. É projeto de país e planejamento com chuteira e rigorosa disciplina.

A criatura não nasceu de acidente. Vem de investimento. O Brasil é referência. Sempre será. Cinco Copas do Mundo não cabem em qualquer estante. O Brasil é Pelé, Garrincha, Didi, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Marta, Rivaldo, Kaká, Vini Júnior, tantos meninos de rua, de várzea, de campinho, de areia, de barro e de sonho. O Brasil inventou a maneira de jogar que virou idioma universal. Onde há uma bola, há um Brasil possível.

A história não entra em campo sozinha. A tradição é linda, mas não marca na recomposição. A camisa amarela assusta, mas não acompanha lateral veloz se estiver cochilando. O passado ajuda, empurra, ilumina. Mas, se o presente vacilar, o futuro passa por cima e ainda pede desculpas com educação japonesa.

O Japão não vai respeitar o Brasil em campo. Isso é elogio. Respeita a história antes do jogo. A camisa na entrevista. Fala bonito, agradece a influência, lembra do Zico, sorri à memória. Mas, quando a bola rolar, acabou a cerimônia. Ninguém atravessa o mundo, investe décadas, forma geração, desafia gigantes e chega a um mata-mata de Copa para fazer reverência durante noventa minutos.

O Japão vem para competir. O Brasil precisa entender que vai encarar uma pedreira. Não é pedra qualquer, que a gente chuta no caminho e reclama do chinelo. É pedreira organizada, com engenheiro, cronograma, capacete e plano de explosão. O Japão sabe sofrer, sabe correr, sabe esperar, sabe acelerar. É uma seleção que transforma descuido em castigo. E castigo, em Copa do Mundo, costuma chegar sem aviso prévio e com replay em câmera lenta.

Nada de soberba. Nada de entrar pensando que hierarquia resolve. Ajuda na chamada, não no placar. O jogo vai exigir concentração, paciência, agressividade inteligente e respeito. Respeito de verdade. Não aquele respeitinho decorativo de entrevista coletiva. Respeito com carrinho, cobertura, passe certo, finalização limpa e fome de gol.

O Brasil precisa ser Brasil. Precisa lembrar que talento sem atenção vira enfeite. Que toque bonito sem profundidade vira bordado em toalha de mesa. Posse de bola sem veneno é só reunião com grama. Contra uma seleção como o Japão, cada cochilo pode virar haicai trágico de três linhas.

Hoje, o calendário resolveu colocar poesia na concentração. É 29 de junho, dia de São Pedro e São Paulo. No Brasil junino, São Pedro costuma aparecer mais na boca do povo, talvez porque esteja mais perto da chuva, da chave, da rede, da pescaria e da vida miúda dos interiores. São Paulo, gigante da tradição cristã, muitas vezes é menos lembrado na festa popular. Não podemos dispensar ninguém. Os dois estão convocados.

São Pedro, pescador, que entende de rede, ajude a nossa a ficar em paz. São Paulo, missionário, homem de estrada, palavra e travessia, que lembre aos nossos jogadores que vestir a camisa do Brasil não é apenas entrar em campo. É assumir a missão.

O Brasil atravessou junho jogando em dias de santo. Passou por Santo Antônio (13), por São João (24), chega agora a São Pedro e São Paulo. Se o calendário acendeu fogueira, que o futebol acenda também. Se teve balão, sanfona, milho, bandeirola e promessa, que tenha agora passe, pressão, coragem e gol. A seleção brasileira tem que entrar em campo como quem dança quadrilha com responsabilidade tática. Olha o Japão! É mentira? Não. É verdade. E vem ligeiro.

Como se não bastasse, a noite ainda traz a Lua de Morango, nome tradicional da lua cheia de junho, celebrado em tradições ancestrais norte-americanas por marcar o período da colheita dos morangos. A lua não fica necessariamente cor-de-rosa, mas carrega o nome bonito, quase de sobremesa celestial. Lua da colheita. Combina demais com o jogo.

O Japão quer colher décadas de investimento. O Brasil quer colher séculos de intimidade com a bola. O Japão plantou método. O Brasil plantou encantamento. O Japão cultivou disciplina. O Brasil cultivou gênio. O Japão preparou o futuro. O Brasil carrega uma eternidade no peito. Hoje, em campo, ninguém colhe discurso. Colhe o que fizer durante o jogo.

Que todas as forças ajudem nossa seleção. Que a memória de Pelé ajude a bênção dos santos. Que a Lua de Morango acenda a alegria do povo brasileiro, que sofre de véspera, reclama de escalação, discute lateral, desconfia do técnico, mas na hora do hino vira uma só garganta, um só coração, uma só esperança verde, amarela, azul e branco.

O Japão é a criatura que cresceu. Cresceu muito. Ficou bonito. Com muita inteligência. Aprendeu com o Brasil, com o mundo e consigo mesmo. Agora desafia o criador, que ainda sabe criar.

Que o Brasil entre atento, humilde, valente e luminoso. Que não confunda favoritismo com facilidade. Que não trate o Japão como lembrança de intercâmbio cultural. Que jogue sério. Que jogue leve. Que jogue grande.

Hoje não basta vencer. É preciso lembrar ao mundo que o Brasil sabe transformar pressão em dança, risco em invenção, susto em contra-ataque e jogo duro em história. A criatura desafia o Criador. Que o Criador esteja inspirado.