O Ministério Público do Estado do Piauí instaurou inquérito civil para investigar o Instituto Vamos Juntos, fundação ligada à vereadora de Teresina Tatiana Medeiros, condenada pela Justiça Eleitoral, sob suspeita de desvio de finalidade e de utilização da entidade para captação e movimentação de recursos de origem ilícita. A decisão é da 25ª Promotoria de Justiça da capital, conduzida pelo promotor José Reinaldo Leão Coelho, e foi publicada no Diário Oficial Eletrônico do órgão nesta sexta-feira.
A apuração nasce do compartilhamento de provas de um inquérito da Polícia Federal e tem como uma de suas bases o afastamento de sigilo bancário, que segundo a portaria de instauração atesta intenso fluxo financeiro atípico envolvendo a ex-parlamentar, Stênio Ferreira Santos, Lucas de Carvalho Dias Sena e a própria fundação.
O documento registra a existência de repasses financeiros da Assembleia Legislativa do Piauí e da Câmara Municipal de Teresina para Stênio Ferreira Santos, com suspeita de transferência imediata dos valores em favor da ex-vereadora. A promotoria menciona ainda a intermediação de nomeações no serviço público como possível contrapartida a transferências financeiras, condutas que configurariam, em tese, a prática conhecida como rachadinha e o nepotismo cruzado.
O novo inquérito busca apurar atos de improbidade administrativa nas modalidades de enriquecimento ilícito, lesão aos cofres públicos e violação aos princípios da administração pública, além do suposto desvio de finalidade da fundação, cuja fiscalização é atribuição direta do Ministério Público.
Tatiana Medeiros foi presa em abril de 2025 durante a Operação Escudo Eleitoral, da Polícia Federal, que investigou a atuação de facções criminosas nas eleições municipais de 2024 em Teresina. Segundo as investigações, a campanha da então candidata foi financiada com recursos de uma facção criminosa com forte atuação no estado e com verbas desviadas do próprio Instituto Vamos Juntos, em cuja sede a Polícia Federal apreendeu R$ 100 mil em espécie em dezembro de 2024. A fundação teve as atividades suspensas por determinação judicial e ficou proibida de receber novos recursos.
Em abril deste ano, a Justiça Eleitoral condenou Tatiana Medeiros a 19 anos, 10 meses e 7 dias de prisão, além do pagamento de multa, pelos crimes de organização criminosa, corrupção eleitoral, peculato, falsidade ideológica eleitoral e lavagem de dinheiro, com a consequente perda do mandato de vereadora. O colegiado de três juízes considerou comprovadas a autoria e a materialidade dos crimes e rejeitou os argumentos da defesa.
Com a instauração do inquérito civil, a promotoria passa a ter instrumentos para requisitar documentos, ouvir os envolvidos e, ao final, decidir entre o arquivamento ou o ajuizamento de ação por improbidade administrativa, frente que corre em paralelo à esfera criminal.